O Salão do Automóvel de Paris, um dos eventos mais relevantes do setor automotivo mundial, está sendo palco para a ascensão das montadoras chinesas, que agora se apresentam como protagonistas em um espaço que antes era dominado por gigantes como General Motors e Toyota. Com mais de 20 marcas chinesas expondo seus modelos, a ambição da China se torna evidente no Paris Expo Porte de Versailles, onde as empresas buscam estreitar laços com o mercado europeu e expandir suas operações.
Entre as montadoras que se destacam, a BYD e a GAC chamam a atenção. A BYD, maior fabricante de veículos elétricos da China, promoveu seu acordo de patrocínio com o Paris Saint-Germain, enquanto a GAC anunciou uma parceria com o Chelsea FC, um dos clubes mais renomados da Premier League. A Geely, por sua vez, apresentou um utilitário esportivo híbrido, com o slogan provocativo “nascido para a Europa”, sinalizando sua intenção de se integrar ao mercado local.
Apesar das tentativas da União Europeia de conter a entrada de veículos chineses de baixo custo, as montadoras do país não mostram sinais de desaceleração. Impedidas de atuar nos Estados Unidos e enfrentando uma demanda fraca em seu mercado doméstico, as empresas chinesas estão focadas em expandir rapidamente na Europa, buscando aumentar sua produção local para se antecipar a possíveis restrições comerciais. A Xpeng, por exemplo, adotou uma estratégia de “na Europa, para a Europa”, com a meta de vender cerca de 500 mil veículos por ano na região até 2030. He Xiaopeng, cofundador da empresa, afirmou que estão abertos a compartilhar tecnologia com fabricantes europeias, o que pode facilitar sua inserção no mercado.
A receptividade dos consumidores europeus também está mudando. Anne-Laure Paulic, uma consultora que visitou o Salão, expressou interesse em trocar seu BMW por um carro chinês, destacando a surpresa positiva que teve ao experimentar um modelo da Xpeng, que conta com recursos tecnológicos avançados, como uma tela de 21 polegadas e bancos com controle de temperatura. Essa mudança de percepção é um sinal claro de que os consumidores estão cada vez mais abertos a considerar veículos de marcas chinesas.
A Espanha se destaca como um dos principais destinos para as montadoras chinesas que buscam parcerias com empresas europeias e americanas. A Leapmotor, por exemplo, apresentou o B10, produzido em sua primeira fábrica europeia em Zaragoza, em colaboração com a Stellantis. A Geely está trabalhando com a Ford na fábrica em Valência, enquanto a SAIC planeja iniciar a produção na Galícia e a Chery se associou a uma marca espanhola para fabricar veículos em Barcelona.
Além disso, a BYD planeja expandir sua produção para a Hungria e está avaliando a possibilidade de abrir fábricas na França. Essa tendência de crescimento deve continuar, especialmente à medida que empresas europeias enfrentam dificuldades e buscam parcerias com montadoras chinesas para manter suas operações em funcionamento. No entanto, a expansão das montadoras chinesas na Europa não ocorre sem resistência. A União Europeia está discutindo um acordo com Pequim que poderia reduzir pela metade o número de carros híbridos chineses exportados para o bloco nos próximos quatro anos, aliviando a pressão sobre a indústria automotiva europeia. Além disso, autoridades estão considerando regras que priorizem empresas europeias em casos de recursos públicos.
O presidente francês, Emmanuel Macron, que visitou o Salão, alertou que as indústrias europeias estão em um momento crítico, de “vida ou morte”. Apesar disso, especialistas como Matthias Schmidt acreditam que as tentativas de limitar a entrada de montadoras chinesas podem ser apenas um alívio temporário, já que a transferência de produção para perto dos mercados da União Europeia é uma tendência crescente. Restringir a oferta pode, paradoxalmente, permitir que as empresas chinesas aumentem seus preços, beneficiando as montadoras que já operam na Europa.
A ascensão das montadoras chinesas no Salão do Automóvel de Paris representa um novo capítulo na história do evento, que teve sua primeira edição em 1898. Embora empresas tradicionais como a Renault busquem mostrar sua capacidade tecnológica, a ausência de marcas como a BMW evidencia o impacto crescente das montadoras chinesas, que estão rapidamente se estabelecendo no mercado europeu. Com vendas da BYD mais que dobrando neste ano e outras marcas como Chery e Leapmotor crescendo ainda mais, a presença chinesa no setor automotivo europeu é inegável. As montadoras europeias, ao firmar parcerias com empresas chinesas, podem acabar ajudando suas concorrentes, mas talvez não tenham outra escolha a não ser cooperar e aprender com elas, conforme observou Ferdinand Dudenhöffer, analista do setor. Para as montadoras chinesas, a percepção de serem uma ameaça ou uma oportunidade para a Europa é uma questão em aberto, mas o fato é que elas estão cada vez mais presentes e influentes no cenário automotivo global.



