A 1ª Vara Regional de Competência Empresarial de São Paulo acatou, nesta terça-feira (3), o pedido de recuperação judicial do grupo Kitchens, conhecido por sua produção de móveis planejados de alto padrão. A empresa declarou um total de R$ 299,9 milhões em dívidas, o que acende um alerta sobre a saúde financeira do grupo.
O juiz Ralpho Waldo de Barros Monteiro Filho identificou uma divergência de R$ 49,4 milhões nas contas das quatro empresas que compõem o grupo. Segundo a decisão, em 28 de fevereiro de 2026, as obrigações com sociedades do grupo totalizavam R$ 115,2 milhões, enquanto os créditos de empréstimos a empresas relacionadas alcançavam R$ 65,8 milhões. A diferença não foi identificada nas demais requerentes, o que levanta questionamentos sobre a transparência das operações financeiras.
A decisão que deferiu a recuperação judicial também destacou a movimentação financeira entre as empresas do grupo. O juiz observou que milhões foram transferidos entre as companhias sem que a contabilidade explicasse claramente os motivos. Por exemplo, a 6S transferiu R$ 4,3 milhões à Kitchens Empreendimentos e R$ 539,1 mil à Kitchens Indústria, mas recebeu R$ 3,1 milhões de uma corretora de câmbio. Em outro caso, R$ 149,4 mil em recebíveis da Kitchens Indústria foram direcionados para a empresa de decoração, que tinha uma dívida de R$ 834,2 mil com o Banco Sofisa.
Essa troca de valores complica a identificação de credores e devedores, levando o juiz a tratar as empresas como um único devedor. Embora não haja acusações de fraude, o grupo terá 15 dias para esclarecer as discrepâncias apontadas.
Em nota, o Grupo Kitchens afirmou que a decisão foi um reconhecimento do cumprimento dos requisitos legais e da interdependência entre suas empresas, que incluem garantias cruzadas e operações financeiras conjuntas. A empresa se comprometeu a elaborar um plano de recuperação que priorize os interesses de seus clientes e colaboradores.
Com uma fábrica localizada em Guarulhos, na Grande São Paulo, o grupo contava, no início de 2026, com dez lojas próprias e seis franquias. Contudo, a crise financeira já resultou no fechamento de algumas lojas, incluindo o showroom em Fortaleza. Essa situação impactou as entregas, levando consumidores a buscar a Justiça para solicitar rescisões de contrato e devoluções de valores. Ao menos três clientes registraram boletins de ocorrência contra o grupo, alegando estelionato.
As quatro empresas têm um prazo de 60 dias, a partir da publicação da decisão, para apresentar um plano único de recuperação, sob pena de falência. O juiz também suspendeu por 180 dias as ações e execuções contra as empresas relacionadas a créditos sujeitos ao processo, nomeando a Brizola e Japur Administração Judicial para fiscalizar as atividades do grupo.
A Kitchens, que possui cerca de 60 anos de história, é reconhecida por seus acabamentos sofisticados e projetos personalizados, atendendo a um público que vai além da alta renda. A marca ganhou notoriedade durante o escândalo da Lava Jato, quando a cozinha de um apartamento tríplex atribuído a Lula foi associada a produtos da Kitchens, embora o ex-presidente tenha sempre negado a propriedade do imóvel.
A empresa, que enfrenta desafios operacionais e busca alternativas para fortalecer seu fluxo financeiro, está em processo de reestruturação e espera superar essa crise com um plano que atenda às necessidades de seus stakeholders.



