Em meio a hinos de vitória transmitidos pela televisão estatal, o regime iraniano começou a moldar uma nova narrativa após o recente acordo com os Estados Unidos. Apesar das perdas significativas, incluindo a morte de cerca de 3.500 civis e do líder supremo Ali Khamenei, fontes dentro do governo e analistas concordam que a guerra não conseguiu desestabilizar a teocracia de 47 anos. Na verdade, muitos acreditam que o regime emergiu mais forte do que antes do início do conflito em fevereiro. “Os EUA cometeram um grande erro. Despertaram o dragão adormecido”, afirmou uma fonte do regime, destacando que, apesar do alto custo, o Irã ativou capacidades que antes hesitava em utilizar. Anos de dificuldades econômicas e protestos violentos haviam levado muitos a acreditar que o regime não sobreviveria a um confronto em larga escala. No entanto, a recente guerra proporcionou ao país uma oportunidade de reafirmar seu controle sobre o Estreito de Hormuz, uma via crucial para o transporte de petróleo e gás. O acordo, que estendeu um cessar-fogo com os EUA, permite a reabertura gradual do estreito e o levantamento do bloqueio naval americano. Contudo, diplomatas alertam que questões críticas, como o estoque de urânio enriquecido do Irã, permanecem sem solução. A opção de transferir esse material para o exterior, considerada antes da guerra, agora parece politicamente inviável em Teerã. Em vez disso, o regime se comprometeu a diluir seu urânio sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Enquanto alguns membros do establishment iraniano hesitam em declarar vitória total, a morte de Khamenei não resultou na paralisia que muitos temiam. Seu filho, aiatolá Mojtaba Khamenei, assumiu o cargo em uma transição que, em tempos de guerra, minimizou possíveis divisões internas. Desde então, sua presença pública tem sido quase inexistente, comunicando-se apenas por meio de declarações escritas. Apesar de sua ausência, a nova liderança tem implementado uma política de relaxamento social, promovendo mudanças visíveis, como a flexibilização das exigências de hijab e a permissão para mulheres se apresentarem em público. O sistema político iraniano, embora enfrentando alguma oposição, demonstrou coesão em decisões críticas sobre guerra e paz, com grupos leais ao regime mantendo uma presença visível em praças públicas. Assim, enquanto o regime iraniano se adapta a novas realidades, a narrativa de vitória e resiliência continua a ser promovida, refletindo uma confiança renovada em sua capacidade de enfrentar desafios internos e externos.


