O consumo crescente de energia pelo Paraguai, oriunda da usina hidrelétrica de Itaipu, deve impactar os preços da energia no Brasil, especialmente ao reduzir a oferta disponível para o sistema elétrico brasileiro durante os horários de pico. Essa análise é fruto de um relatório do Itaú BBA, que destaca como a demanda paraguaia pode afetar a dinâmica do mercado energético brasileiro nos próximos anos.
A usina de Itaipu, com capacidade de 14 gigawatts (GW), é compartilhada entre Brasil e Paraguai, com cada país tendo direito a metade da energia gerada. Tradicionalmente, o Brasil consome toda a sua cota e ainda adquire o excedente do Paraguai, que historicamente tem uma demanda menor. No entanto, essa situação está mudando, com o Paraguai experimentando um aumento significativo na demanda de energia, impulsionado por setores como mineração de criptomoedas e data centers.
Entre 2023 e 2025, a demanda de energia no Paraguai deve crescer entre 12% e 18% ao ano, alcançando uma média de 3,3 GW em 2025. A maior parte dessa demanda é suprida pela energia de Itaipu, embora a participação possa variar conforme a estratégia da Ande, a estatal de energia paraguaia. Um fator que complica essa dinâmica é que o pico de consumo no Paraguai ocorre às 18h, coincidindo com o horário de maior demanda no Brasil.
Os analistas do Itaú BBA alertam que, entre abril e setembro, o aumento da carga paraguaia nesse horário deve reduzir a energia disponível para o Brasil, que é quando o sistema elétrico nacional mais precisa dela. A previsão é que a demanda da Ande cresça de 4,0 GW em 2026 para 4,7 GW em 2029, o que pode resultar em uma elevação da geração termelétrica no Brasil em cerca de 11% ao ano entre 2027 e 2029. Consequentemente, o preço médio da energia pode subir de R$ 40 para R$ 59 por megawatt-hora (MWh).
A partir de 2027, o efeito do aumento do consumo paraguaio sobre os preços brasileiros deve se tornar mais evidente, especialmente com a nova metodologia de previsão de carga que será adotada pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico). A atual metodologia não tem acompanhado a rápida aceleração da demanda paraguaia nos últimos anos.
Além de afetar os preços, o aumento do consumo paraguaio também pode impactar os contratos das distribuidoras brasileiras que compram energia de Itaipu. Se a Ande continuar a consumir mais do que a cota brasileira, as distribuidoras poderão enfrentar um déficit de energia em 2027, obrigando-as a recorrer ao mercado de curto prazo para suprir suas necessidades. A Abradee (Associação Brasileira de Distribuidoras de Energia Elétrica) já enviou uma carta à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) solicitando que o governo defina rapidamente o montante de energia da Ande a ser abatido das cotas de Itaipu para o próximo ano, para que as distribuidoras possam ajustar suas necessidades antes do leilão de compra programado para 13 de novembro.



