O luto e a esperança se entrelaçam na vida de mães que enfrentam a dor da ausência de seus filhos desaparecidos. Em um clamor por visibilidade, memória e respeito, essas mulheres buscam não apenas respostas, mas também a atenção da sociedade para uma realidade que muitas vezes é ignorada. Em 2025, o Brasil registrou 84.760 pessoas desaparecidas, um número alarmante que evidencia a urgência de ações efetivas para lidar com essa questão.
desaparecidos: cenário e impactos
Neste Dia das Mães, celebrado em 10 de maio, o sentimento de saudade é ainda mais intenso. Para essas mães, cada data comemorativa é um lembrete da ausência de seus filhos. Elas anseiam por um “feliz Dia das Mães” que nunca chega, mas que ainda assim esperam ouvir. A busca por seus filhos, sejam eles recém-desaparecidos ou sumidos há décadas, é uma luta diária que se intensifica em momentos como este.
As histórias de dor e luta se refletem em personagens da literatura, como a escrava Kehinde, do romance Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, que busca seu filho desaparecido. Essas narrativas fictícias ecoam a realidade de muitas mães que, como a operadora de caixa Rita Preta, do livro Coração sem Medo, de Itamar Vieira Junior, enfrentam a angústia da busca por seus filhos.
A realidade de Clarice e sua luta diária
Um exemplo tocante é a história de Clarice Cardoso, de 27 anos, moradora da comunidade quilombola São Sebastião dos Pretos, em Bacabal (MA). Seus filhos, Ágatha Isabelle, de 6 anos, e Allan Michael, de 4, desapareceram em 4 de janeiro de 2026, enquanto brincavam na mata próxima de casa. O primo Anderson, que estava com eles, foi encontrado, mas o desespero de Clarice persiste.
Em entrevista à Agência Brasil, Clarice compartilha que, em meio ao pesadelo, tem encontrado apoio no filho mais velho, André, de 9 anos. “Ele entende tudo o que está acontecendo e temos conversado muito com ele”, diz, emocionada. A vida da família está suspensa, marcada pela espera e pela esperança de notícias que possam trazer alívio.
“A cada ligação que eu recebo, penso que pode ser uma novidade, alguma pista”, revela Clarice.
O preconceito enfrentado nas buscas
Além da dor da ausência, Clarice enfrenta o preconceito nas ruas e nas delegacias. Ela relata que, ao buscar informações sobre seus filhos, frequentemente escuta comentários maldosos e percebe olhares de julgamento. “As pessoas me olham. Algumas parecem ser solidárias. Mas muitas têm preconceito sim”, lamenta.
Com a vida em suspenso, Clarice também cuida de sua mãe, que sofreu um acidente de moto em uma das viagens à cidade em busca de informações. “Agora eu tenho que fazer mais coisas para minha casa e minha família. Mas minha vida está parada”, desabafa.
A investigação sobre o desaparecimento das crianças aponta para a possibilidade de um homem ter tido contato com elas na mata, mas a polícia local afirma que todas as informações estão sendo averiguadas.
Formando redes de apoio
Em meio a essa luta, a formação de redes de apoio tem sido fundamental. Ivanise Espiridião, de 63 anos, procura pela filha Fabiana desde 23 de dezembro de 1995. Para aliviar seu sofrimento e ajudar outras mães, ela criou o grupo Mães da Sé, que se tornou uma família unida pela dor e pela esperança de respostas.
“O Dia das Mães causa uma mistura de sentimentos, de ser lembrada pelos filhos que estão conosco e tristeza por não ter uma pessoa que faz parte dessa família e que está ausente”, reflete Ivanise, que neste ano celebra o 30º Dia das Mães sem a filha.
O grupo Mães da Sé se reúne para dar visibilidade às histórias de suas crianças desaparecidas, mas também para apoiar umas às outras. “A dor multiplicava. Parecia que ficava mais doída. A gente resolveu que, no Dia das Mães, a gente não ia mais para a Praça da Sé. Nós íamos dar atenção para os nossos filhos que estão ao nosso redor”, conta Ivanise.
As histórias de mães como Clarice e Ivanise ressaltam a importância de não apenas lembrar, mas também agir. Em um país onde o desaparecimento de pessoas é uma realidade alarmante, a luta por justiça e visibilidade deve ser constante. Neste Dia das Mães, é fundamental que a sociedade se una a essas mães, oferecendo apoio e solidariedade em suas jornadas dolorosas.
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