Um estudo realizado na década de 1980, que analisou a redução da jornada semanal de trabalho de 48 para 44 horas, revela que essa mudança não resultou em um aumento significativo do desemprego. A pesquisa, conduzida pelo economista Naercio Menezes Filho, professor do Insper e da FEA-USP, em colaboração com outros pesquisadores, mostra que a alteração beneficiou os trabalhadores, que, além de não enfrentarem demissões, viram sua renda aumentar devido ao crescimento na remuneração por hora trabalhada.
O estudo comparou trabalhadores afetados pela nova carga horária com um grupo de controle que já trabalhava 44 horas por semana. Os resultados foram positivos: não houve aumento do desemprego e, surpreendentemente, a renda dos trabalhadores aumentou. Segundo Menezes, a probabilidade de deixar o mercado de trabalho até mesmo diminuiu, embora tenha havido uma leve redução de cerca de 2% no salário mensal. Essa diminuição, no entanto, foi compensada pelo aumento da remuneração por hora, que se tornou maior devido à redução proporcional da jornada.
Esses dados são especialmente relevantes no contexto atual, onde o debate sobre a jornada de trabalho ganha força novamente. A emenda constitucional que propõe o fim da escala 6×1 — seis dias de trabalho seguidos de um dia de descanso — foi recentemente promulgada pelo Congresso Nacional, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O economista ressalta que as mudanças no cenário econômico atual são diferentes das que ocorreram na década de 80, mas acredita que os efeitos de uma eventual redução da jornada de trabalho hoje podem ser igualmente positivos.
Menezes critica as previsões pessimistas que cercam a discussão sobre a redução da jornada, afirmando que muitas delas se baseiam em estudos com pouca fundamentação técnica. Ele argumenta que, se todos os custos adicionais gerados pela redução da jornada fossem repassados aos preços, isso poderia resultar em uma inflação ainda maior, afetando negativamente a remuneração por hora. Contudo, a pesquisa indica que nem todos os custos foram transferidos, permitindo que os trabalhadores experimentassem um ganho real em seus salários.
Além dos aspectos econômicos, o professor destaca os benefícios sociais de uma jornada de trabalho reduzida. Ele menciona que isso poderia proporcionar mais tempo para pais e mães passarem com seus filhos, o que teria efeitos positivos no desenvolvimento infantil. Para Menezes, a discussão sobre a jornada de trabalho deve ir além das preocupações financeiras dos empregadores, considerando também os ganhos sociais para os trabalhadores e a sociedade como um todo.
Na mudança de 1988, a redução da jornada foi implementada de forma abrupta, sem um período de transição, o que contrasta com o debate atual que busca uma abordagem mais gradual e planejada. A pesquisa da década de 80 serve como um importante referencial para os legisladores e a sociedade, mostrando que a redução da carga horária pode ser benéfica tanto para os trabalhadores quanto para a economia.




