O dólar abriu em alta nesta terça-feira (23), com os investidores analisando a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. O colegiado decidiu cortar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, reduzindo-a de 14,5% para 14,25% ao ano. No entanto, a ata trouxe à tona uma piora nas expectativas para a inflação, o que gerou ruídos no mercado. Os investidores interpretaram a justificativa do Copom como um sinal de maior tolerância em relação à inflação acima da meta estabelecida.
Às 9h26, a moeda norte-americana apresentava uma alta de 0,5%, sendo cotada a R$ 5,168. No dia anterior, o dólar havia fechado em queda de 0,61%, a R$ 5,142, enquanto a Bolsa de Valores subiu 1,2%, alcançando 170.370 pontos. A ata revelou que, para que o Banco Central consiga atingir a meta de inflação no último trimestre de 2027, seria necessário realizar ajustes agressivos na taxa Selic, o que poderia levar a inflação a ficar abaixo da meta por um período prolongado.
O Copom destacou que a projeção de inflação para o final de 2027 subiu para 3,7%, distanciando-se do alvo de 3%. Para alcançar a meta nesse prazo, a política monetária precisaria de “variações abruptas de direção e de grande magnitude na Selic, seguidas de vários trimestres com inflação abaixo da meta”. Isso levou o Banco Central a considerar trajetórias da Selic que estivessem mais alinhadas com as expectativas do mercado, conforme indicado no boletim Focus, que é um questionário pré-Copom.
Os analistas da Warren Investimentos, Luis Felipe Vital, Cecília Mazzoni e Felipe Figueiró, afirmaram que a ata mantém um tom “dovish” (suave no combate à inflação), mas revela uma preocupação do Banco Central em justificar a falta de uma reação mais contundente à deterioração do cenário econômico. Eles comentaram que o Copom busca esclarecer a confusão gerada pela comunicação anterior, especialmente em relação ao horizonte relevante e às simulações apresentadas. O recado é claro: o processo de calibração da taxa de juros será ajustado conforme a mudança no cenário econômico, e o Banco Central deve seguir trajetórias semelhantes às expectativas do mercado, evitando assim a volatilidade excessiva nos preços dos ativos financeiros.
A indicação de que o Banco Central poderia trabalhar para alcançar a meta de 3% para o IPCA apenas no primeiro trimestre de 2028, e não mais no horizonte relevante atual, gerou uma reação negativa no mercado. Os investidores interpretaram essa mudança como uma forma de alterar a meta sem admitir ajustes, o que poderia desancorar as expectativas de inflação para o período.
Essa interpretação elevou os juros futuros no país. Na segunda-feira, o Tesouro Nacional cancelou um leilão de NTN-Bs (Tesouro IPCA+, ou títulos públicos indexados à inflação) programado para a manhã, em meio ao estresse do mercado. Essa ação foi vista como uma tentativa de acalmar os investidores e conter a alta das taxas de juros. As curvas das NTN-Bs indicam quanto o mercado exige em termos de rendimentos para adquirir títulos públicos, que rendem a variação do IPCA mais um ganho percentual, conhecido como “juro real”.
Antes da decisão do Copom, a NTN-B com vencimento em maio de 2029 apresentava um juro real de 8,39%. Após a decisão, esse percentual subiu para 8,82%, e na segunda-feira, após o cancelamento do leilão, caiu para 8,75%. A maioria dos vencimentos, com exceção dos contratos de 2028 e 2031, registrou queda nesta sessão. Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, comentou que o cancelamento do leilão de NTN-B pelo Tesouro pode ser um primeiro passo antes de uma operação de recompra, ou seja, uma intervenção do Tesouro no mercado de títulos públicos. Há pouco mais de três meses, o Tesouro já havia suspendido a emissão de NTN-Bs e recomprado R$ 49 bilhões em papéis, buscando dar suporte a um mercado que aguardava cortes na Selic e que foi impactado pelo pessimismo gerado pela guerra no Oriente Médio.



