A recente vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, embora tenha gerado mudanças na dinâmica política interna, não deve aliviar a pressão exercida pelo presidente Donald Trump sobre o Brasil. Essa é a avaliação de analistas ouvidos pela BBC News Brasil, que destacam que a nova composição do Congresso americano não terá mecanismos institucionais suficientes para alterar a política comercial e as sanções já impostas pelo governo Trump.
Com a confirmação dos resultados das eleições, os democratas assumirão o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, mas isso não se traduz em uma mudança imediata nas relações entre Washington e Brasília. O economista Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento, explica que, apesar de uma maior interlocução política com o Itamaraty, a capacidade do Congresso de influenciar a política externa é limitada. “O Congresso mais democrata pode modificar a capacidade de diálogo, mas não terá condições de alterar a política comercial de Trump, que é onde estão as implicações mais fortes sobre a relação entre os dois países atualmente”, afirma.
Os dados preliminares das eleições indicam que os democratas controlarão a Câmara com 240 parlamentares, enquanto os republicanos terão 147. No Senado, a vantagem também é dos democratas, com 54 cadeiras contra 44 dos republicanos. Essa nova configuração deve entrar em vigor a partir de 3 de janeiro de 2027, quando o atual Congresso republicano, que tem a maioria, deixará de existir. Canuto ressalta que a relação entre o Parlamento e a Casa Branca deve se tornar mais conflituosa, mas a falta de competências institucionais do Congresso em questões de política externa manterá as pressões de Trump sobre o Brasil e outros países.
Os analistas acreditam que, embora haja um aumento nas solicitações de esclarecimentos sobre temas como a presença de Flávio Bolsonaro na Flórida, isso não deve impactar as tarifas impostas aos produtos brasileiros. Lucas Leite, professor da Fundação Armando Alvares Penteado, também é cético quanto à possibilidade de mudanças significativas na política externa americana em relação ao Brasil. Ele argumenta que, mesmo com uma maior interlocução no Congresso, o governo de Lula não deverá conseguir reverter a agenda de Trump, que continua a priorizar suas políticas internas, como a deportação.
“Os parlamentares eleitos devem focar em formar uma oposição mais forte às políticas de Trump, especialmente em relação à imigração”, afirma Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo. Ela destaca que as comissões de Relações Exteriores, que provavelmente serão presididas por democratas, poderão aumentar a pressão sobre o Departamento de Estado, mas isso não deve resultar em mudanças nas tarifas ou nas sanções já estabelecidas.
Marco Rubio, atual secretário de Estado, tem sido um dos principais defensores de ações agressivas dos EUA na América Latina e já se envolveu em conflitos retóricos com o Brasil. Recentemente, ele criticou Lula por supostamente colocar seu ego acima de um possível acordo comercial entre os dois países. A pressão sobre o Brasil deve continuar, mesmo com as mudanças no Congresso americano, pois as ferramentas de pressão utilizadas pelo governo Trump estão fora da esfera de atuação do Legislativo, o que torna improvável qualquer alteração na política externa em relação ao Brasil nos próximos anos.



