Milhares de manifestantes tomaram as ruas de Túnis neste sábado (17), participando do maior protesto em anos contra o governo de Kais Saied. A insatisfação popular é alimentada por uma grave crise econômica, que se agrava com a deterioração dos serviços públicos e a escassez de produtos essenciais. A manifestação, organizada pela principal central sindical do país, a UGTT, também contou com a presença de diversos grupos da sociedade civil, que se uniram para expressar sua rejeição à liderança de Saied, acusado de autoritarismo e de minar a democracia.
Desde que assumiu o poder em 2021, Saied tem sido criticado por dissolver o Parlamento e governar por decretos, ações que seus opositores classificam como um golpe. Organizações de direitos humanos denunciam um aumento da repressão contra jornalistas, ativistas e figuras da oposição, enquanto o presidente nega essas acusações e afirma que não é um ditador.
Os manifestantes exigem a libertação de críticos do governo e protestam contra os ataques aos direitos sindicais. Cartazes carregados pelos participantes expressavam frustração com o desemprego e a poluição, refletindo um descontentamento generalizado com as condições de vida no país. A marcha ocorreu na avenida Habib Bourguiba, um local emblemático que foi palco das revoltas da Primavera Árabe em 2011.
A mobilização deste sábado representa um desafio significativo para Saied, especialmente em um momento em que a oposição, que historicamente tem enfrentado divisões internas, se uniu em torno de uma causa comum. “O silêncio não será mais aceitável. O Estado não pode ser construído concentrando todos os poderes nas mãos de uma única pessoa”, declarou Slah Eddine Salmi, dirigente da UGTT, durante o protesto.
Com gritos de “Sem medo, o poder pertence ao povo” e “as prisões estão cheias, o povo está com fome”, os manifestantes relembraram o lema da revolta de 2011, que na Tunísia foi notavelmente pacífica. Um dos participantes, Yassine Gharseli, veio de Sfax, a cerca de 250 km da capital, e afirmou: “Basta! O país está desmoronando. Sofremos com cortes de energia e de água, e enfrentamos uma crise após a outra. Vim de Sfax para defender minha liberdade e não pretendo desistir, mesmo que eu me torne a última voz do país.”
A onda de protestos não é exclusiva da Tunísia. Nas últimas semanas, manifestações semelhantes têm ocorrido em várias partes do mundo, refletindo uma crescente insatisfação com a corrupção, a precariedade dos serviços públicos e a falta de representatividade política. Em países como Índia, França, Indonésia e Marrocos, jovens têm se mobilizado em busca de mudanças, demonstrando uma desconfiança crescente nas instituições governamentais. A situação na Tunísia se destaca, pois o país, que foi o estopim da Primavera Árabe, volta a ver suas ruas tomadas por vozes que clamam por liberdade e justiça social.



