Em um cenário onde a previdência social é um tema cada vez mais debatido, surge a pergunta: quanto do seu futuro você deve confiar ao INSS? Essa questão é especialmente relevante quando consideramos que as promessas de aposentadoria podem não se concretizar da mesma forma que imaginamos. O professor e assessor da Casa do Investidor, Michael Viriato, explora essa temática em seu blog “De Grão em Grão”, trazendo à tona a complexidade do sistema previdenciário brasileiro e suas implicações para as gerações futuras.
O INSS, ou Instituto Nacional do Seguro Social, opera em grande parte pelo regime de repartição, onde as contribuições dos trabalhadores atuais sustentam os benefícios dos aposentados. Essa dinâmica é semelhante a uma família em que os filhos ajudam a sustentar os pais: quanto mais filhos, menor é o esforço individual. No entanto, essa estrutura enfrenta um desafio significativo. Em 2023, 15,6% da população brasileira tinha 60 anos ou mais, e as projeções do IBGE indicam que essa proporção pode chegar a 37,8% até 2070. Ao mesmo tempo, a taxa de fecundidade caiu para menos de dois filhos por mulher, o que significa que haverá proporcionalmente mais idosos e menos jovens para financiar o sistema.
Outro fator a ser considerado é a informalidade no mercado de trabalho. Em 2025, cerca de 38% dos trabalhadores brasileiros estavam na informalidade, o que significa que, embora estejam empregados, não contribuem regularmente para a Previdência. Isso gera uma discrepância entre o número total de trabalhadores e a base de contribuintes regulares. Além disso, muitos profissionais estão optando por receber através de pessoas jurídicas, o que pode resultar em contribuições menores ao INSS, impactando a arrecadação do sistema.
Esses fatores já estão pressionando as contas da Previdência. Em 2025, o Regime Geral de Previdência Social arrecadou aproximadamente R$ 710 bilhões, enquanto os gastos com benefícios chegaram a cerca de R$ 1,03 trilhão, resultando em um déficit de aproximadamente R$ 317 bilhões. Essa situação não significa que o INSS fechará as portas, mas indica que a diferença precisa ser coberta de alguma forma, seja por meio de aumento nas contribuições, elevação da idade mínima para aposentadoria, redução dos benefícios ou uma combinação dessas medidas.
É crucial entender que as regras do sistema previdenciário podem mudar. A reforma da Previdência de 2019 já trouxe alterações significativas nas idades, fórmulas de cálculo e regras de transição. Para aqueles próximos da aposentadoria, as regras atuais podem parecer uma referência segura. No entanto, para quem planeja se aposentar em 20 ou 30 anos, confiar que essas condições permanecerão inalteradas é um risco considerável.
Portanto, a reflexão que fica é: como você está se preparando para o futuro? É essencial considerar que, além de uma possível redução nos benefícios, pode haver um atraso na aposentadoria. Para aqueles que almejam parar de trabalhar aos 60 anos, é preciso estar ciente de que essa meta pode não ser tão simples de alcançar, dependendo das mudanças que podem ocorrer no sistema previdenciário ao longo dos anos. A responsabilidade de garantir um futuro financeiro seguro não deve ser depositada apenas nas mãos do INSS, mas deve ser parte de um planejamento mais amplo e consciente.



