A estratégia do ex-presidente Donald Trump em relação ao Irã e aos Acordos de Abraão parece mais voltada para a construção de um legado pessoal do que para um projeto sólido de paz no Oriente Médio. O que impulsiona o presidente americano é a necessidade de encontrar um desfecho para uma guerra impopular e economicamente desgastante, que os Estados Unidos ajudaram a aprofundar. Nesse cenário, Israel se torna um ator dependente das oscilações políticas e interesses circunstanciais da Casa Branca.
Recentemente, Trump intensificou a pressão sobre países árabes e muçulmanos, como Arábia Saudita e Qatar, para que se unam aos Acordos de Abraão. Sua retórica, típica do trumpismo, é grandiosa e centrada na ideia de um “grande acordo histórico”. Contudo, por trás dessa linguagem performática, há um dado concreto: Washington demonstra fadiga em relação à guerra e busca encerrar frentes de conflito antes que o desgaste se torne insustentável.
Ao apostar em arranjos liderados diretamente por Washington, Trump parece tentar substituir organismos multilaterais tradicionais, como a ONU, por coalizões sob liderança americana. Esses espaços permitem que os Estados Unidos não precisem compartilhar protagonismo com potências como China, Rússia ou Europa.
Durante anos, Binyamin Netanyahu promoveu a ideia de uma aliança inabalável com os Estados Unidos contra o Irã, sustentando sua oposição ao acordo nuclear de Barack Obama e defendendo políticas de pressão máxima contra Teerã. No entanto, a realidade atual é diferente. Trump não age como alguém interessado em travar uma longa guerra ao lado de Israel, mas como alguém obcecado por se apresentar como um “pacificador global”, capaz de gerar capital político e, quem sabe, conquistar um Prêmio Nobel da Paz.
Os interesses americanos e israelenses começam a entrar em conflito de maneira cada vez mais evidente. Para Trump, um acordo parcial com o Irã pode ser considerado uma vitória. Para Netanyahu, qualquer acordo que não elimine a produção nuclear iraniana representa uma derrota estratégica. O governo israelense parece ter perdido parte significativa de sua capacidade de influenciar Washington.
Esse desgaste se intensifica, pois a guerra não gerou a imagem de vitória absoluta prometida por Israel. O Hamas foi severamente atingido, mas não desapareceu. O Hezbollah continua a demonstrar resistência, e o trauma dos reféns permanece exposto. O Irã continua a ser uma potência regional capaz de gerar instabilidade global. O peso do ataque de 7 de outubro ainda paira sobre a sociedade israelense como uma ferida política e moral que não cicatriza.
Essa situação também afeta as comunidades judaicas na diáspora. No Brasil e em outros países, essas comunidades enfrentam um momento delicado. O crescimento do antissemitismo global desde 7 de outubro está atrelado à dificuldade de separar a identidade judaica das ações do governo israelense e das decisões do gabinete de Netanyahu. Em espaços públicos, judeus passaram a ser cobrados coletivamente pelas ações do governo israelense, inclusive por pessoas que se consideram progressistas e defensoras dos direitos humanos.
Um dos maiores danos dessa guerra talvez seja a simplificação do debate público. Apoiar a existência de Israel não deve significar endossar automaticamente todas as decisões de seu governo, assim como criticar Netanyahu não deve servir de licença moral para normalizar o antissemitismo, a violência simbólica ou a relativização do massacre de 7 de outubro.
Enquanto Trump transforma a diplomacia em um espetáculo pessoal e Netanyahu luta pela própria sobrevivência política, Israel se vê em uma situação de isolamento internacional, com tensões sociais sem precedentes e uma crise democrática e institucional inédita, cada vez mais distante da imagem de estabilidade democrática que historicamente buscou projetar.



