Post: El Niño promete ser o mais intenso desde 1950 e deve impactar agricultura e economia

nio - El Niño se forma como um dos mais fortes desde 1950, impactando a agricultura e a economia brasileira.
Imagem gerada com IA

O fenômeno climático conhecido como El Niño está se formando e promete ser um dos mais fortes desde 1950, com potencial para causar grandes mudanças no ciclo agrícola brasileiro. A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou a formação do evento, com uma probabilidade de 63% de que as temperaturas da superfície do mar na região do Pacífico superem 2,0 °C. Essa situação é preocupante, especialmente para um setor agrícola que já enfrenta desafios significativos, como endividamento crescente, juros elevados e a alta dos custos de insumos.

Os especialistas alertam que o El Niño pode acentuar a fragilidade financeira do agronegócio. Claudio Montoro, professor do Insper, destaca que o fenômeno é um “catalisador de riscos” para um setor que já opera com margens de lucro reduzidas. A expectativa é que o impacto não se limite apenas ao campo, mas também afete o custo de vida nas cidades, com aumentos nos preços de alimentos e energia. O boletim Focus do Banco Central já sinaliza uma inflação em alta, com projeções de 5,11% para 2026, superando a meta estabelecida.

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Equatorial, que altera padrões de chuva e temperatura em várias regiões do mundo. Historicamente, eventos como o de 1997/98, que apresentou um aumento de 2,8 °C nas temperaturas, causaram impactos severos, como chuvas torrenciais no Sul e secas no Norte e Nordeste do Brasil. Este novo fenômeno pode ser ainda mais intenso, o que preocupa os produtores rurais, especialmente nas regiões Centro-Oeste, onde a irregularidade hídrica pode afetar a produção.

Os efeitos do El Niño no campo incluem o aumento da incidência de doenças fúngicas devido ao excesso de umidade, além de atrasos nas chuvas e períodos prolongados de seca, que podem comprometer o início do ciclo agrícola. No Sudeste e Centro-Oeste, os produtores enfrentam calor excessivo e chuvas mal distribuídas, o que torna a situação ainda mais crítica.

A sustentabilidade econômica dos produtores está sob pressão, com custos de produção elevados e uma queda nas commodities agropecuárias, que registraram uma média de 10,9% de desvalorização em 12 meses, segundo o Banco Central. Além disso, a taxa Selic alta tem dificultado o acesso ao crédito, colocando os agricultores em uma situação ainda mais vulnerável.

David Telio, professor do Instituto Brasileiro de Direito do Agronegócio, prevê que a crise financeira no agronegócio deve se agravar, com um risco elevado de quebra de safra em diversas regiões. As culturas mais suscetíveis incluem soja, milho, trigo, algodão e, em algumas áreas, café e cana-de-açúcar. A gestão profissional e o uso de instrumentos de proteção, como seguros rurais, são vistos como essenciais para mitigar os riscos.

Dados da Serasa Experian indicam que o agronegócio registrou o maior número de solicitações de recuperação judicial desde 2021, com um aumento significativo entre os produtores rurais. A inadimplência no setor também cresceu, atingindo 8,2% da população rural no último trimestre de 2025.

Além das dificuldades climáticas, o cenário geopolítico global, como o desabastecimento de fertilizantes devido a conflitos internacionais, adiciona mais incertezas ao futuro da agricultura brasileira. A queda nas importações de fertilizantes e o aumento nos custos de importação exigem mais capital de giro e aumentam a exposição dos produtores a flutuações cambiais e logísticas.

Os impactos do El Niño devem refletir diretamente nos preços dos alimentos e na condução da política econômica do país, com previsões de que o fenômeno climático possa adicionar até 0,8 ponto percentual ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026. O setor elétrico também está em alerta, já que a seca severa no Norte e Nordeste pode comprometer os reservatórios das hidrelétricas, aumentando a dependência de usinas térmicas, que são mais caras.

Nesse contexto, especialistas afirmam que os riscos de alta da inflação superam os de queda, o que pode levar o Banco Central a manter os juros altos por mais tempo, complicando ainda mais a situação do agronegócio e da economia brasileira.

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