Post: Brasil não precisa processar todos os minerais críticos que produz, afirma líder de fundo de investimento

Milson Mundim, da Appian Capital, defende que Brasil pode prosperar sem processar todos os minerais críticos que produz.
Brasil não precisa processar todos os minerais críticos que produz, afirma líder de fundo de investimento

A discussão sobre a necessidade do Brasil em desenvolver o processamento local de minerais críticos, em vez de se concentrar apenas na exportação, é um tema que merece uma análise mais aprofundada. Essa é a opinião de Milson Mundim, executivo à frente da Appian Capital no Brasil, um fundo britânico de investimento que opera no setor mineral em estados como Bahia e Minas Gerais. Para Mundim, o país pode prosperar sem necessariamente avançar nas etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva da mineração.

Ele destaca que existem exemplos de países que são modelos de desenvolvimento, como Austrália e Canadá, que não se preocupam em processar todos os produtos da mineração. “A Austrália, por exemplo, não produz uma caneta sequer. O downstream [processamento] não é necessariamente a parte de maior valor agregado da cadeia”, explica.

Mundim menciona a Atlantic Nickel, uma das empresas do grupo Appian, que se dedica à extração e ao primeiro beneficiamento do níquel sulfetado no sul da Bahia. Segundo ele, essa companhia apresenta uma rentabilidade superior à dos clientes que compram o níquel para processamento. “Às vezes, a ideia de que precisamos processar os minérios aqui no Brasil por conta do maior valor agregado não é verdadeira. Nem todas as cadeias agregam valor no processamento”, afirma.

Ele também comenta que o downstream, que inclui etapas como refino e processamento, muitas vezes apresenta margens operacionais mais apertadas em comparação com a extração primária. O executivo cita o exemplo do cobre, onde 80% do valor da commodity está no minério concentrado, enquanto a fundição enfrenta forte concorrência global e capacidade ociosa.

“Não há nada de errado em um país que tem vocação para ser apenas minerador”, defende Mundim. Essa perspectiva é compartilhada por parte do setor mineral, que vê com ceticismo a ideia de que o Brasil deve forçar a industrialização mineral. Um relatório do Banco Mundial de 2015 questiona a eficácia de políticas que visam a agregação de valor às exportações de matérias-primas, apontando que a posse de reservas minerais não garante vantagens para o processamento.

Além disso, as vantagens associadas ao processamento dependem de fatores como regulação e custo de capital. Atualmente, a indústria brasileira está concentrada nas etapas iniciais da cadeia, com pouco processamento e fabricação de produtos de maior valor agregado. Em 2023, apenas 5% do lítio extraído no Brasil foi processado internamente, enquanto o níquel refinado representou menos de 40% da produção total.

Esses dados refletem a necessidade de uma discussão mais ampla sobre o papel do Brasil na cadeia global de mineração e a viabilidade de avançar em direção ao processamento local. A visão de Mundim sugere que o foco deve ser na eficiência e na rentabilidade das operações, ao invés de uma pressão para industrializar a mineração de forma forçada.

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