Post: Mexilhão-dourado avança pelos rios brasileiros e ameaça hidrelétricas

Mexilhão-dourado avança pelos rios brasileiros, ameaçando a infraestrutura de hidrelétricas e causando prejuízos econômicos.
Mexilhão-dourado avança pelos rios brasileiros e ameaça hidrelétricas

Um pequeno molusco de água doce, conhecido como mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), está chamando a atenção de pesquisadores devido ao seu potencial de transformar ambientes aquáticos e causar danos econômicos significativos. Originário da Ásia, o mexilhão-dourado se espalhou por diversas bacias hidrográficas brasileiras, com um novo registro recente no Rio São Francisco, em Minas Gerais. Pesquisadores da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) identificaram 113 exemplares em trechos dos municípios de São Francisco e São Romão, localizados a cerca de mil quilômetros do registro anterior mais próximo na bacia do São Francisco, na região da barragem de Sobradinho.

A descoberta, realizada entre julho de 2024 e abril de 2025, durante cinco expedições em 16 estações de quatro municípios, foi publicada na revista científica CheckList. O professor Magno Borges, um dos coordenadores do estudo, destaca que a distância entre os registros indica uma expansão mais rápida e complexa do que se imaginava. A questão que se levanta é como o mexilhão-dourado conseguiu superar essa distância, incluindo barreiras formadas por reservatórios e barragens.

A hipótese de que o molusco teria avançado naturalmente pela conexão entre diferentes rios não explica completamente o novo registro. Segundo os pesquisadores, a ausência de mexilhões em pontos rio acima, como Pirapora e Ibiaí, e no reservatório de Três Marias, enfraquece a possibilidade de uma dispersão contínua pela correnteza. O professor Maurício Lopes de Faria, coautor do estudo, sugere que pequenas embarcações podem ter desempenhado um papel crucial nesse deslocamento. Ele afirma que, se a invasão tivesse ocorrido por dispersão natural, o mexilhão deveria ter sido encontrado em Pirapora e Ibiaí, o que não aconteceu.

Uma das possibilidades levantadas é que o mexilhão-dourado tenha sido transportado passivamente em embarcações, permitindo que a espécie “salte” grandes distâncias. As larvas do mexilhão são microscópicas e podem ser levadas pela água, enquanto os exemplares adultos conseguem se fixar em cascos, redes e outros equipamentos. Essa capacidade de fixação e formação de colônias densas torna o mexilhão-dourado uma ameaça para tubulações e equipamentos submersos.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) alerta que o mexilhão-dourado pode ser transportado na água acumulada em embarcações e em recipientes utilizados para iscas vivas. Como as larvas são invisíveis a olho nu, a transferência entre rios pode ocorrer sem que o responsável perceba. A espécie provavelmente chegou à América do Sul de forma acidental, associada à água de lastro de navios cargueiros, com a Argentina como porta de entrada. Depois, alcançou o Brasil e começou a ocupar rios e reservatórios em várias regiões.

O problema não se limita à presença do mexilhão-dourado nos rios. O molusco possui uma alta capacidade de reprodução e dispersão, além de praticamente não encontrar predadores naturais que consigam conter sua expansão no país. Quando adulto, ele se fixa em superfícies rígidas e pode formar colônias muito numerosas, o que gera preocupações para as hidrelétricas. O acúmulo do mexilhão em estruturas submersas pode obstruir tubulações e sistemas de captação de água utilizados na geração de energia, resultando em interrupções para limpeza e manutenção, além de aumentar os custos operacionais. Sistemas de abastecimento, irrigação, pesca e navegação também podem ser afetados.

O professor Faria alerta que a presença da espécie invasora pode causar sérios prejuízos econômicos, comprometendo tubulações de captação de água e sistemas de irrigação, além de danificar redes de pescadores. Além dos impactos econômicos, existe uma ameaça ambiental significativa. Como organismo filtrador, o mexilhão-dourado remove partículas da água para se alimentar e pode competir com espécies nativas por alimento e espaço, alterando a estrutura das comunidades aquáticas.

O Ibama classifica o mexilhão-dourado como espécie exótica invasora, destacando seus impactos na competição com moluscos nativos, prejuízos à pesca e alterações na vegetação aquática. Diante desse cenário, a prevenção torna-se essencial. O Ibama informa que, uma vez estabelecidas, as colônias de mexilhão-dourado são praticamente impossíveis de erradicar com os recursos e conhecimentos disponíveis atualmente. Medidas como a limpeza de embarcações, a retirada da água acumulada e a higienização de equipamentos de pesca são fundamentais para evitar que o invasor alcance novos ambientes.

No São Francisco, os pesquisadores ressaltam que o reservatório de Três Marias ainda não apresenta registros da espécie. Para o professor Faria, essa situação representa uma oportunidade para intensificar o monitoramento e adotar medidas preventivas antes que o mexilhão-dourado consiga se estabelecer em outros trechos da bacia.

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