A situação da saúde na Bolívia se torna cada vez mais crítica, com médicos alertando que o sistema pode colapsar em decorrência da grave escassez de medicamentos e alimentos. Na última quinta-feira (28), centenas de profissionais de saúde se reuniram no centro de La Paz para protestar contra os bloqueios de estradas que já duram um mês e que dificultam a entrega de suprimentos essenciais. Os manifestantes, vestidos com jalecos brancos e acompanhados por sirenes de ambulâncias, clamavam: “Para os pacientes, oxigênio e comida!”.
Desde o início de maio, uma série de grupos, incluindo operários e caminhoneiros, tem se mobilizado em busca de soluções para a pior crise econômica que a Bolívia enfrenta em quatro décadas. Entre as reivindicações, está a renúncia do presidente Rodrigo Paz, que está no cargo há apenas seis meses. A médica Mónica Reyes, de 48 anos, expressou a gravidade da situação: “Não temos mais suprimentos nem para cinco dias. A alimentação nos hospitais está acabando e os produtos estão sendo racionados. Os pacientes já têm a dor da doença e agora estão somando a dor do país”.
De acordo com a Câmara da Indústria Farmacêutica Boliviana, cerca de 50 toneladas de medicamentos e oxigênio estão retidas devido aos bloqueios. A estatal Administradora Boliviana de Rodovias informou que existem mais de 60 pontos de bloqueio em todo o país. Diante da situação, o Ministério da Saúde, liderado pela médica Marcela Flores, fez um apelo urgente para que os líderes comunitários permitam a passagem de caminhões-tanque de oxigênio.
“O Ministério da Saúde respeita o direito ao protesto social; contudo, lembra a todos que a doença e o sofrimento não discriminam com base em filiação política, ideologia ou crença”, afirmou o ministério em um comunicado, ressaltando a urgência da liberação das rotas, especialmente devido ao fenômeno da evaporação do oxigênio líquido.
Luis Larrea, presidente do Conselho de Medicina, pediu ao governo que inicie um diálogo. “E se não houver diálogo, que utilize o que diz a Constituição (…), vidas humanas estão em perigo”, enfatizou, referindo-se à possibilidade de um estado de sítio. O Congresso, por sua vez, eliminou uma norma que exigia a aprovação parlamentar para que o presidente pudesse declarar um estado de exceção, o que poderia permitir a contenção dos protestos com o uso de militares.
A Defensoria do Povo informou que quatro pessoas faleceram por não terem recebido atendimento médico oportuno devido aos bloqueios. O governo boliviano, por sua vez, denuncia uma tentativa de “alterar a ordem democrática”, apontando o ex-presidente Evo Morales como um dos incitadores dos protestos, em meio a um caso de suposto tráfico de uma menor que o mantém foragido. A crise de saúde, portanto, se entrelaça com a instabilidade política do país, gerando um cenário alarmante para a população.

