A experiência chilena com o programa Puente, criado em 2002, oferece valiosas lições sobre como abordar a pobreza de maneira eficaz. O programa tinha como objetivo conectar famílias em situação de extrema pobreza a serviços públicos essenciais, criando uma verdadeira ponte entre os mais necessitados e as oportunidades disponíveis. Essa iniciativa se destacou por suas visitas domiciliares, onde agentes especializados ofereciam diagnóstico e aconselhamento personalizado, garantindo que os beneficiários tivessem acesso prioritário a recursos e serviços.
No Brasil, embora existam programas como Bolsa Família, Farmácia Popular e Minha Casa Minha Vida, o acesso a esses benefícios muitas vezes é envolto em burocracia. A falta de um sistema que permita um acesso facilitado para os mais vulneráveis pode ser um dos fatores que impede a efetiva superação da pobreza. O modelo atual, que espera que os próprios pobres busquem os serviços disponíveis, não tem se mostrado suficiente para erradicar a pobreza. Isso levanta a questão: será que precisamos de uma abordagem mais proativa, como a do Chile, que envolve agentes que vão até as famílias para ajudá-las?
As visitas do programa Puente não apenas ofereciam um plano de desenvolvimento familiar, mas também orientações práticas sobre como utilizar a rede de serviços disponíveis. O impacto positivo do programa foi documentado em uma avaliação publicada no The Economic Journal, que revelou um aumento significativo na inscrição de adultos pobres em programas de inclusão no mercado de trabalho. No entanto, essa inclusão não se traduziu em um aumento proporcional de renda ou emprego, indicando que, apesar da alta adesão, a eficácia do programa em gerar resultados tangíveis ainda precisava ser aprimorada.
No Brasil, o IBGE aponta que entre os 10% mais pobres, há 4,7 milhões de pessoas dispostas a trabalhar, mas que não conseguem. Isso reforça a necessidade de uma abordagem mais direta e personalizada, semelhante à do Puente, que envolva conversas e planejamento conjunto com as famílias, visando uma inclusão produtiva real. A criação de um programa como Oportunidade Família poderia ser um passo importante nesse sentido, oferecendo não apenas acesso a cursos de qualificação, mas também um suporte contínuo para garantir que esses cursos se traduzam em oportunidades de emprego e aumento de renda.
O aprendizado com o modelo chileno é claro: é fundamental ir até os mais pobres, entender suas necessidades e desenvolver um plano que realmente funcione para a inclusão social. O Brasil já possui uma base de programas sociais, mas a falta de uma curadoria eficaz e de um acompanhamento próximo pode estar limitando seu impacto. Portanto, a reflexão sobre a implementação de um modelo mais inclusivo e acessível é urgente, pois a superação da pobreza requer não apenas programas, mas também uma mudança na forma como esses serviços são oferecidos e acessados.



