Uma das empresas ligadas ao advogado Willer Tomaz, que está sob investigação da Polícia Federal por suposto envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas através de casas de apostas, transferiu R$ 17,7 milhões à Talismã Digital, da influenciadora Virgínia Fonseca. As movimentações financeiras entre a AMP Pay Marketing e Negócios e a empresa de Virgínia ocorreram entre março e setembro de 2024, período em que a influenciadora promovia a casa de apostas Blaze, que a PF suspeita ter ligação com Willer.
A assessoria de Virgínia Fonseca afirmou que os pagamentos foram destinados a campanhas publicitárias devidamente contratadas, embora não tenha detalhado quais. A assessoria ainda ressaltou que Willer não figura em nenhum contrato firmado por ela e que não o conhece pessoalmente. O advogado, que é amigo do senador Flávio Bolsonaro, não respondeu aos pedidos de comentário da reportagem.
Documentos obtidos pela PF indicam que Willer Tomaz se apresentou como sócio ou acionista da AMP Pay em um e-mail enviado ao Magnum Bank, onde era cliente. A polícia acredita que a AMP Pay pode ser uma empresa de fachada, utilizada por Willer para movimentar recursos de forma ilícita. Informações sobre os repasses foram reveladas em um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) enviado à CPI das Bets no Senado, e o conteúdo foi confirmado pela Folha.
As autoridades afirmam que plataformas de apostas e instituições de pagamento podem ter sido utilizadas por Willer não apenas para atividades recreativas, mas como meios para ocultar e dissimular recursos. Uma nota técnica do Ministério da Fazenda revelou que ele foi o maior apostador em plataformas de apostas do Brasil em 2025, com um total de R$ 5 bilhões apostados, dos quais mais de R$ 200 milhões foram sacados, a maior parte transacionada dentro da própria plataforma.
Além disso, a PF identificou que Willer utilizou uma conta na fintech A55 para enviar recursos à Blaze, com movimentações consideradas atípicas pela instituição financeira. A polícia também notou que a Foggo Entertainment Ltda., responsável pelas operações da Blaze, usou o mesmo endereço de empresas ligadas ao advogado e seus ex-sócios, o que justifica a necessidade de aprofundar a investigação sobre possíveis vínculos entre eles.
As transferências feitas pela AMP Pay para a empresa de Virgínia foram consideradas suspeitas pelo Banco Santander, que comunicou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre as movimentações. O estranhamento se deu pelo fato de a AMP Pay estar registrada na categoria Simples Nacional, que é destinada a negócios com faturamento anual de até R$ 4,8 milhões. De acordo com o cadastro na Receita Federal, a AMP Pay tem um capital social de R$ 50 mil e está localizada em um box no centro comercial de Itajaí, em Santa Catarina.
O proprietário da AMP Pay, Guilherme Maciel, afirmou não conhecer Willer e que a empresa atuou exclusivamente como gateway de pagamentos entre 2024 e 2025. No entanto, ele não esclareceu quais serviços Virgínia prestou à sua empresa, nem quantos funcionários ela possui. A assessoria de Virgínia indicou que questões sobre a atuação de terceiros e a composição societária de empresas devem ser direcionadas aos envolvidos.
Em abril de 2025, Virgínia foi convocada pela CPI das Bets para explicar os contratos com empresas de apostas, diante de suspeitas de que os apostadores eram iludidos com promessas de ganhos irreais. A relatora da comissão, senadora Soraya Thronicke, chegou a propor o indiciamento da influenciadora por “enganosa e estelionato”, mas o relatório foi rejeitado. A investigação continua em andamento, com a PF buscando elucidar as complexas relações entre os envolvidos e as movimentações financeiras suspeitas.



