Um artigo publicado recentemente no periódico científico *Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health* destaca um avanço significativo nas políticas de saúde para mulheres na Inglaterra. A Nova Estratégia de Saúde da Mulher, lançada em abril de 2026, reconhece oficialmente a “misoginia médica” como uma falha estrutural do NHS, o sistema público de saúde britânico. Essa atualização da Estratégia de Saúde da Mulher de 2022 é considerada um marco histórico, pois traz à tona questões que, embora amplamente discutidas, raramente são formalmente reconhecidas por governos.
A doutoranda em Medicina Materno-Fetal na Universidade de Oxford, Sahana Narayan, enfatiza que o reconhecimento da misoginia médica como um problema sistêmico é um divisor de águas no debate sobre saúde feminina. Segundo ela, essa mudança de perspectiva é crucial para a construção de um sistema de saúde mais justo e igualitário.
Historicamente, a diferença de tratamento entre homens e mulheres na saúde é bem documentada em diversos países. No entanto, poucos governos têm se atrevido a nomear essa discriminação de forma tão explícita. Enquanto na França, Austrália, Canadá e Nova Zelândia se utiliza o termo “viés de gênero”, o Brasil, por sua vez, adota a PNAISM (Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher), que orienta a evitar qualquer forma de discriminação.
Carmen Diniz, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, aponta que a misoginia médica se manifesta de várias maneiras dentro da medicina, refletindo uma construção de conhecimento predominantemente masculina. “O reconhecimento dessa realidade é um passo importante para transformar a formação dos profissionais de saúde e, consequentemente, a prática médica”, afirma Diniz.
O governo britânico, ao reconhecer a misoginia médica, admite que a estratégia anterior falhou por abordar apenas as consequências do problema, sem atacar suas causas. A nova abordagem busca uma reforma estrutural abrangente, fundamentada nas vozes e escolhas das mulheres. O documento destaca que o NHS tem um problema de misoginia médica e que não se esquivará desse desafio.
Além de definir a misoginia médica como um padrão, o documento também critica o modelo de cuidado atual, que tende a ser paternalista e centrado nos interesses dos profissionais, em detrimento das necessidades das pacientes. A normalização da dor feminina e o desprezo pelos corpos das mulheres são questões que precisam ser abordadas com urgência, conforme evidenciado por dados e casos documentados no Reino Unido.
A Nova Estratégia de Saúde da Mulher representa um passo importante na luta por equidade de gênero na saúde, propondo uma mudança de paradigma que pode influenciar políticas públicas em outros países. A adoção de uma linguagem que reconhece a misoginia médica como um problema sistêmico é um avanço que pode inspirar outras nações a seguir o exemplo britânico e abordar a saúde das mulheres de maneira mais inclusiva e justa.



