O gestor Jocildo Silva Lemos, alvo de uma investigação da Polícia Federal (PF) sobre aportes de recursos de aposentados no Banco Master, é acusado de mentir sobre seu cargo na Amapá Previdência (Amprev) ao solicitar um patrocínio de R$ 10 milhões do governo do estado para o Carnaval de 2026 em Macapá. Lemos, que é aliado do senador Davi Alcolumbre (União-AP), ocupou simultaneamente o cargo de diretor-presidente da Amprev e de presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Amapá (Liesap), entidade responsável pela organização dos desfiles de Carnaval.
A situação gerou a abertura de um inquérito civil público pelo Ministério Público do Amapá, que investiga possíveis casos de improbidade administrativa e conflito de interesses. Documentos obtidos pela Folha revelam que, na proposta apresentada à Secretaria de Turismo, Lemos se declarou como ex-diretor-presidente da Amprev, omitindo sua atual posição. Ele também afirmou que a Liesap não contava com diretores que fossem dirigentes de órgãos da administração pública, o que contraria a legislação vigente.
Em 25 de junho de 2025, Lemos protocolou a proposta de patrocínio, mesmo sabendo que, no mesmo dia, ele presidia a Amprev. A lei proíbe parcerias entre a administração pública e organizações civis que tenham diretores que também ocupem cargos na administração pública da mesma esfera. O ex-presidente da Amprev e a Liesap não responderam aos questionamentos feitos pela reportagem. Registros públicos mostram que Lemos participou de reuniões do comitê de investimentos da Amprev e do Conselho Estadual de Previdência, onde discutiu assuntos relacionados ao Banco Master enquanto buscava financiamento público para o Carnaval.
A proposta de patrocínio foi aprovada em 2 de julho de 2025, e o contrato foi assinado em 31 de julho, com a liberação dos R$ 10 milhões. O governo do Amapá, por meio da Secretaria de Turismo, defendeu que não houve conflito de interesses, alegando que o convênio foi firmado com o governo e não com a Amprev, o que, segundo eles, inviabilizaria qualquer ingerência direta do gestor sobre o repasse dos recursos.
O senador Davi Alcolumbre também se manifestou, afirmando que sua atuação no Carnaval foi por meio de articulação institucional, e que não interfere na gestão da Liesap. No entanto, a liga recebeu R$ 22,5 milhões entre os Carnavais de 2025 e 2026, sendo parte desse valor proveniente de emendas parlamentares. O apoio do senador foi destacado nas divulgações da liga, que incluíam sua logomarca em banners e postagens nas redes sociais.
A investigação da PF, que se intensificou após a revelação dos aportes de R$ 400 milhões no Banco Master, levou Lemos a pedir demissão da Amprev. Ele permanece à frente da Liesap, onde continua a ser uma figura central na organização dos desfiles de Carnaval. A situação levanta questões sérias sobre a ética na gestão pública e a transparência nas relações entre políticos e entidades civis, especialmente em um evento de grande relevância cultural e social como o Carnaval.



