Na Copa do Mundo de 2026, as seleções de futebol refletem uma diversidade que remete a um passado significativo do Brasil, onde muitos jogadores eram filhos de imigrantes. Enquanto a França se destaca com 20 de seus 26 atletas oriundos de famílias imigrantes, o Brasil também viveu um fenômeno semelhante no século passado, quando a seleção era composta em grande parte por descendentes de estrangeiros.
Durante a primeira metade do século 20, o Brasil recebeu um grande número de imigrantes, e sobrenomes como Lorenzato, Mutzenbecher e Ojeda tornaram-se comuns nas equipes nacionais. Esses atletas frequentemente se destacavam em clubes fundados por imigrantes, como Palmeiras, Corinthians e Vasco, que desempenharam um papel crucial na popularização do futebol no país.
A conquista do Campeonato Sul-Americano de 1919, a primeira da seleção brasileira, contou com a presença de cinco titulares que eram filhos de imigrantes. Entre eles, Friedenreich, filho de um alemão, e Neco, cuja origem era portuguesa, simbolizavam a mistura cultural que caracterizava o futebol brasileiro. Na época, a cidade de São Paulo tinha uma população de 35% composta por estrangeiros, de acordo com o IBGE.
Charles Miller, o responsável por introduzir o futebol no Brasil, também era filho de imigrantes. Nascido de um escocês, Miller trouxe o esporte ao país em 1895, após estudar na Inglaterra. Outro importante nome foi Oscar Cox, que ajudou a fundar o Fluminense no Rio de Janeiro em 1902, contribuindo para a popularização do futebol entre as classes mais baixas, que se expandiram com a chegada de milhões de imigrantes ao Brasil.
A pujança da economia cafeeira transformou São Paulo em um polo industrial e atraiu imigrantes de diversas origens. Clubes como o Germânia, fundado pela comunidade alemã, e a Portuguesa de Desportos, formada por imigrantes portugueses, surgiram nesse contexto. Ao mesmo tempo, times amadores disputavam torneios nas várzeas dos rios da cidade, onde muitos jogadores eram filhos de italianos, a comunidade estrangeira mais numerosa na época.
Fernando Galuppo, historiador, destaca que a criação do Palmeiras em 1914 visava unir imigrantes de todas as partes da Itália. O clube buscava integrar essas comunidades, que até então se reuniam em associações provinciais. Jogadores como Heitor Marcellino e Amilcar Barbuy, que se destacaram na seleção de 1919, eram exemplos dessa união.
A rivalidade entre clubes como Corinthians e Palmeiras também teve raízes na imigração. O Corinthians, fundado como um clube de operários, buscava atrair imigrantes de diversas nacionalidades. Neco, um dos filhos de imigrantes que fez parte da seleção de 1919, era filho de um português que vivia em um bairro de imigrantes em São Paulo.
Arthur Friedenreich, outro destaque da seleção, simbolizava a diversidade étnica do futebol brasileiro, com um pai alemão e uma mãe brasileira negra. Essa diversidade, no entanto, não foi bem recebida por todos, já que famílias ricas da elite branca tentavam barrar a inclusão de jogadores populares no esporte.
O futebol, que começou como um esporte elitista, foi se democratizando ao longo do tempo, refletindo a rica tapeçaria cultural do Brasil, onde filhos de imigrantes desempenharam papéis fundamentais na formação da identidade nacional. A história do futebol brasileiro é, portanto, entrelaçada com a história da imigração, mostrando como o esporte pode unir diferentes culturas e promover a inclusão.



