Em um cenário econômico desafiador, os fundos de investimentos isentos de Imposto de Renda (IR) alcançaram o maior volume de resgates líquidos desde 2021, conforme um levantamento realizado pela plataforma Credit Guide. Até o dia 29 do último mês, esses fundos registraram R$ 17 bilhões em resgates líquidos, o que representa o maior montante desde o início da série histórica, em 2021. Em contrapartida, a captação bruta, que é o total de recursos que ingressaram nos fundos, somou R$ 44,9 bilhões, o menor nível desde novembro de 2025.
Esse movimento ocorre em meio a pressões sobre os spreads de títulos de crédito privado. Os spreads são a diferença entre a taxa de remuneração de um título privado e a de um título público de referência, com características e prazos semelhantes. Os fundos isentos são investimentos em ativos que oferecem benefícios tributários, incluindo aqueles voltados para o financiamento de infraestrutura, que podem investir em debêntures incentivadas, títulos de dívida emitidos por empresas para financiar projetos em setores como energia, saneamento e transporte.
A onda de resgates pode intensificar a pressão sobre o mercado de crédito privado. Quando ocorrem saques, os gestores precisam levantar recursos para honrar os pagamentos aos investidores. Dependendo da composição da carteira e das condições de mercado, isso pode levar à venda de ativos. Se essas vendas acontecerem em um período de baixa liquidez, os preços dos títulos podem cair, resultando em um aumento dos spreads.
O mercado de crédito privado permite que empresas captem recursos diretamente de investidores por meio da emissão de títulos de dívida. Os fundos, por sua vez, ampliam a base de investidores desses papéis, reunindo recursos de diferentes cotistas e diversificando a exposição entre emissores e operações.
Sergio Omati, cofundador e chefe de produtos da Credit Guide, aponta que diversos fatores estão pressionando o setor, incluindo a marcação a mercado. Ele explica que os spreads das debêntures incentivadas vêm se ampliando desde março, o que desvaloriza as cotas. “O investidor pessoa física é sensível à rentabilidade fraca e tende a resgatar quando a cota decepciona”, afirma.
A alta das taxas de juros indica, na prática, a perda de valor desses títulos no mercado, uma vez que preço e rendimento têm uma relação inversa. Quando as taxas aumentam, os preços dos papéis caem; quando as taxas diminuem, os ativos se valorizam. O ambiente de juros elevados também pressiona o crédito privado, aumentando a competição por recursos dos investidores. Com a Selic em 13,75% ao ano desde setembro, após dois cortes de 0,25 ponto percentual nas reuniões de agosto e setembro, a atratividade dos títulos públicos, que oferecem risco de crédito soberano, cresce.
Além disso, as eleições estão no horizonte, e a incerteza sobre as políticas econômicas dos candidatos, como Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), gera especulação e cautela entre os investidores. Essa situação pode impactar ainda mais o comportamento do mercado de crédito e a confiança dos investidores nos fundos de investimentos isentos.



