A decisão da Justiça francesa de liberar o suspeito de um atentado terrorista de motivação racista em Paris gerou uma onda de protestos nas ruas da cidade neste domingo (25). A manifestação, que reuniu centenas de pessoas, foi marcada por homenagens às vítimas e um apelo contra o avanço da extrema direita e do racismo na França. O acusado, identificado como Kévin T., de 39 anos, foi transferido para uma unidade psiquiátrica da polícia para avaliação de sua saúde mental, após a Procuradoria Nacional Antiterrorismo revogar sua prisão preventiva.
Kévin T. é acusado de ter realizado um ataque que resultou na morte de um jovem francês de origem congolesa, Pengo Bossio Wangi, de 26 anos, e deixou outras cinco pessoas feridas. O suspeito já apresentava um diagnóstico de esquizofrenia e estava sob tratamento médico. Exames toxicológicos realizados após o ataque mostraram a presença de maconha e cocaína em seu organismo.
A decisão de libertá-lo gerou críticas, especialmente do advogado da família da vítima, Yassine Bouzrou. Ele destacou a recorrência do uso de avaliações psiquiátricas em casos de atentados relacionados à extrema direita, questionando a imparcialidade desse tipo de análise. “Quando o atentado procede da extrema direita, a questão psiquiátrica se impõe muito rapidamente”, afirmou Bouzrou, ressaltando que todos os acusados deveriam ser submetidos aos mesmos critérios de avaliação, independentemente de sua ideologia.
O ataque ocorreu na manhã de sexta-feira (23), quando Kévin disparou contra transeuntes em um posto de gasolina, um centro médico e um parque infantil nas localidades de Trappes e La Verrière, ao sudoeste de Paris. O presidente Emmanuel Macron classificou o ato como um “atentado terrorista racista”, enfatizando que o atirador escolheu suas vítimas com base na cor da pele e na aparência.
Entre os feridos, uma menina de 12 anos permanece em estado crítico após ser atingida por oito disparos. Durante as investigações, a polícia prendeu quatro pessoas próximas ao suspeito, incluindo seus pais. Em sua residência, foram encontrados materiais que indicam uma possível preparação para mais ataques, como um exemplar de “Mein Kampf”, de Adolf Hitler, e uma estrutura com botijões de gás e temporizadores.
Em resposta à liberação do suspeito, uma marcha silenciosa foi realizada em Aubervilliers, um subúrbio de Paris, com a presença de moradores, políticos e ativistas. Os manifestantes, acompanhados por autoridades locais, carregavam faixas com fotos de Bossio Wangi e cartazes denunciando o discurso de ódio que alimenta a extrema direita. A designer Ella Samba, que participou do protesto, expressou seu temor em relação ao crescimento da intolerância na sociedade. “Este ataque racista é resultado do grande avanço da extrema direita na mídia. Como mulher negra, era importante vir apoiar a família”, declarou.
Ao final da manifestação, os participantes realizaram um minuto de silêncio em memória de Bossio Wangi, reafirmando a necessidade de combater o racismo e a violência em todas as suas formas.



