O Brasil vive um momento paradoxal no mercado automotivo: enquanto o financiamento de veículos alcança um volume recorde, a inadimplência também se eleva. Em agosto de 2026, foram financiadas 683.928 unidades, o maior número para o mês desde 2011, conforme dados da Trillia, empresa de informações da B3. Nos primeiros oito meses do ano, o total de veículos financiados, incluindo novos e usados, chegou a 5,136 milhões, representando um crescimento de 10% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Em termos financeiros, os bancos concederam R$ 173 bilhões em financiamentos até julho, superando os R$ 150 bilhões registrados nos anos anteriores. Apesar desse crescimento, a inadimplência também atinge níveis alarmantes. Dados de julho mostram que 6,63% dos financiamentos para pessoas físicas estavam em atraso há mais de 90 dias, o maior índice desde 2012. Para as empresas, o índice de inadimplência foi de 5,62%, o mais alto desde 2016, um ano marcado pela grave recessão econômica no Brasil.
Renata Herani, CEO da Tecnobank, destaca que o mercado poderia estar se expandindo ainda mais, não fosse a alta taxa de inadimplência. “A situação econômica atual, com juros elevados e a classe média endividada, impacta diretamente na capacidade de pagamento dos consumidores”, afirma. Cassio Pagliarini, sócio da consultoria Bright, observa que a dificuldade em aprovar financiamentos já é uma realidade. “Os bancos estão adotando um controle mais rigoroso na concessão de crédito para evitar um aumento desenfreado da inadimplência, como ocorreu em anos anteriores.”
Ele lembra que, em 2012, a redução do IPI e a queda da Selic incentivaram as vendas, mas resultaram em um aumento significativo da inadimplência. Naquele ano, o Volkswagen Gol era um dos carros mais vendidos, com preço inicial de R$ 27.990, que, ajustado pela inflação, equivaleria a R$ 57,5 mil hoje. Atualmente, os modelos mais vendidos têm preços iniciais superiores a R$ 90 mil, como o Volkswagen Polo, que começa em R$ 96.690.
No Santander, líder em financiamentos de veículos, a inadimplência se mantém estável. Alexandre Papa, diretor de auto, usados e motos da instituição, explica que a análise de crédito está sendo mais rigorosa. “Estamos observando que a qualidade das propostas caiu, refletindo o nível de endividamento da população”, diz. Para clientes com bom histórico de crédito, o banco ainda oferece financiamentos sem entrada, enquanto aqueles com score menor precisam aportar de 20% a 30% do valor do veículo.
A tendência de crescimento dos veículos elétricos e híbridos também influencia o mercado. Segundo Papa, esses modelos, que frequentemente oferecem taxas de juros mais baixas, atraem motoristas de aplicativos devido à economia com combustíveis. O programa Move Brasil, que subsidia a compra de veículos para profissionais do transporte, também tem contribuído para essa mudança, com 51 mil carros vendidos até o momento.
Entretanto, Milad Kalume, consultor da K.Lume, alerta que a inadimplência já era uma preocupação do Banco Central antes do lançamento do programa. Ele ressalta que o indicador de inadimplência considera apenas operações com atraso superior a 90 dias e não inclui financiamentos com recursos de programas governamentais. “O risco financeiro é elevado para uma classe econômica com renda instável”, conclui Kalume.


