Post: A definição do interesse nacional e suas implicações na política externa brasileira

A reflexão sobre o interesse nacional na política externa brasileira e suas implicações para o futuro do país.
A definição do interesse nacional e suas implicações na política externa brasileira

Estamos, mais uma vez, diante da escolha entre dois projetos de país. Na noite de sábado (3), horas antes de votar, conversei em São Paulo com Irene Vida Gala, embaixadora do Brasil em Ruanda e diplomata desde 1985. Falávamos de política externa quando ela questionou: “O interesse nacional é interesse de quem?”.

Essa pergunta desmantela a ideia de que a política externa está acima das disputas partidárias. Governos vêm e vão, presidentes são substituídos, mas um suposto interesse nacional se mantém, conduzido por uma diplomacia profissional capaz de identificá-lo e defendê-lo. O problema, argumenta Irene, é que alguém sempre define esse interesse.

O Itamaraty, fundado no século 19 em um país escravocrata, defendia internacionalmente as escolhas de proprietários — de terras e de pessoas. Ao longo dos dois séculos seguintes, os mesmos grupos continuaram a ter mais condições de determinar quem era o Brasil e o que o Brasil desejava no cenário internacional.

A chegada de Lula à Presidência, em 2003, trouxe uma ruptura significativa, permitindo que grupos historicamente afastados do poder passassem a disputar a definição do interesse nacional. A aproximação com países africanos é um exemplo claro disso. O movimento negro brasileiro, por fim, conseguiu fazer da relação com a África uma questão de Estado.

Ao ingressar no Itamaraty em 1985, a embaixadora encontrou uma instituição marcada pelo que ela descreve, citando o cientista político Dawisson Belém Lopes, como uma tradição oligárquica. Isso não significa que todos os diplomatas pertenciam a oligarquias, mas que a instituição consolidou códigos, referências e maneiras de entender o país a partir dessas perspectivas.

Um governo pode optar por investir nas relações Sul-Sul ou concentrar-se em servir aos interesses do Norte. Pode reconhecer a crise climática como eixo das negociações internacionais ou negá-la. Pode ainda denunciar o genocídio do Estado de Israel em Gaza ou aplaudi-lo. Cada uma dessas decisões carrega uma interpretação sobre o Brasil e os brasileiros cujos interesses devem ser projetados para fora.

A burocracia diplomática brasileira, reconhecida por sua solidez, garantirá que o Brasil mantenha relações com países governados por forças políticas diferentes daquelas que estiverem no Planalto. Contudo, a partidarização da política externa, explica Irene, é uma consequência da democracia. O profissionalismo do Itamaraty é exercido a partir de escolhas que refletem as prioridades de cada governo. A política externa não é apenas uma questão técnica, mas um campo de disputa onde diferentes visões de Brasil se confrontam. O desafio é garantir que essas visões sejam representativas e que o interesse nacional não seja apenas o interesse de uma elite, mas sim um reflexo da diversidade e das necessidades de toda a população brasileira.

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