No interior de Minas Gerais, a cidade de Poços de Caldas enfrenta um clima de tensão após a circulação de listas no WhatsApp que pedem o boicote a estabelecimentos pertencentes a eleitores do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). As mensagens, que se espalharam rapidamente, incitam os cidadãos a não consumirem em locais identificados como ‘petistas’. As listas incluem uma variedade de comércios e conclamam as pessoas a agir em defesa do que consideram ser um patriotismo. “Se você é patriota, não compre nada nestes comércios todos petistas! Amplie a lista se souber”, diz um trecho das mensagens. Essa prática não é nova; já foi observada em eleições anteriores, como em 2022, quando Jair Bolsonaro (PL) foi derrotado por Lula. A situação gerou reações contundentes entre os comerciantes, como a de Gustavo Pupila, que expressou sua indignação nas redes sociais. “Isso aí é crime, é coisa feia. Eu vou descobrir cada um desses bandidos que pôs meu nome lá. Esses criminosos vão pagar. Não aceitaram perder e estão querendo mexer com a minha vida. Eu vou mexer com a sua vida, agora. Eu irei te achar”, afirmou. A Folha conversou com proprietários de estabelecimentos incluídos na lista. Uma comerciante relatou que já havia enfrentado situações semelhantes em 2022, quando sentiu medo e hostilidade. “Naquela eleição foi difícil para mim. Mas a realidade é que isso dura pouco. O que vejo hoje é que esse tipo de agressão mais une a gente do que desune. As pessoas de bom senso, equilibradas, não entram nisso”, disse. Outro comerciante, que atua na cidade há décadas, também compartilhou sua experiência de hostilidade e perda temporária de clientes, mas ressaltou que a situação logo se normalizou. Ele ainda mencionou que foi expulso de uma academia por confrontar a proprietária sobre a disseminação de fake news nas redes sociais. Com uma população de 173 mil habitantes, Poços de Caldas registrou 90,5 mil votos no segundo turno das eleições. Enquanto o estado de Minas Gerais deu 50,4% dos votos para Lula e 49,6% para Flávio Bolsonaro, na cidade a situação foi diferente, com Bolsonaro obtendo 55,8% dos votos e Lula 44,2%. Os vereadores Tiago Mafra e Diney Lenon, ambos do PT e eleitos na cidade, também se manifestaram sobre a situação, destacando a importância de combater a intolerância política e a necessidade de promover um diálogo construtivo entre os cidadãos. A divulgação de listas de boicote por motivação política pode configurar crime de perseguição, conforme previsto no Código Penal, quando integra uma campanha reiterada que ameaça a integridade física ou psicológica das vítimas ou invade sua liberdade ou privacidade. A pena prevista é de seis meses a dois anos de reclusão, além de multa.



