A expressão “Nós, o Povo”, que figura no preâmbulo da Constituição americana, ganha um novo significado após as recentes eleições de meio de mandato nos Estados Unidos e a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil. Essas mudanças políticas revelam não apenas a dinâmica interna de cada país, mas também refletem um desejo coletivo de transformação e renovação. Ao analisarmos o que os constituintes de 1787 queriam dizer com “povo”, é importante lembrar que, na época, a definição excluía mulheres, negros, escravizados e criminosos da vida pública. Com o tempo, a luta por inclusão levou a uma ampliação do conceito, fazendo com que a ideia de povo se tornasse uma representação mais abrangente da sociedade.
Recentemente, o Brasil viu Lula derrotar o senador Flávio Bolsonaro por uma diferença expressiva de 4,4 milhões de votos. Essa vitória não é apenas um número, mas sim uma manifestação clara da vontade do povo brasileiro. Da mesma forma, nos EUA, a vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato alterou o equilíbrio de poder no Congresso, limitando a atuação de um presidente que, segundo muitos, tem se mostrado despreparado para o cargo. Essas guinadas eleitorais, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, expressam um claro rechaço social, capaz de mudar o rumo dos países em questão de dias.
A figura de Donald Trump se tornou um plebiscito em si mesmo durante as eleições, e o resultado foi uma derrota significativa. O cansaço da população em relação a sua postura egocêntrica e suas promessas vazias foi evidente. Os democratas, por sua vez, focaram em questões cotidianas que afetam a vida dos cidadãos, como a inflação e o aumento dos preços dos combustíveis, que subiram 34% e 70%, respectivamente, em um ano. Essa abordagem pragmática se mostrou mais eficaz do que as extravagâncias de Trump, que gastou somas exorbitantes em eventos na Casa Branca enquanto a população lutava com a crise econômica.
Além disso, o repúdio ao governo republicano também se manifestou entre a comunidade latina, que se distanciou dos republicanos em resposta às políticas de deportação e à retórica de supremacia branca. O Partido Democrata, embora tenha motivos para celebrar, não deve descansar sobre os louros da vitória. A reconexão com a sociedade e a capitalização da diversidade emergente das urnas ainda são desafios a serem enfrentados. Nas últimas eleições, os democratas conseguiram eleger a primeira governadora negra, a primeira governadora indígena, e o primeiro senador assumidamente gay, entre outros marcos históricos. Esses candidatos se apresentaram de forma autêntica, sem depender de pautas identitárias, reafirmando que a diversidade é uma parte fundamental do conceito de “nós, o povo”.
Se Trump continuar a promover a supremacia branca, ele será lembrado como um dos presidentes mais patéticos da história dos Estados Unidos. A melhor opção para ele seria se afastar da cena política e deixar que os advogados cuidem de suas pendências legais. Assim, as lições das guinadas eleitorais nos dois países nos ensinam que a vontade popular, quando unida e mobilizada, pode provocar mudanças significativas e duradouras.



