O despejo de uma mulher de 87 anos do apartamento onde morava há sete décadas trouxe à tona a gravidade da crise de moradia na Espanha. Maricarmen, que residia em um apartamento de 92 m² no bairro do Retiro, em Madri, foi forçada a deixar seu lar na quarta-feira (23) devido ao aumento do aluguel exigido pela empresa proprietária do imóvel. Após um longo litígio, a Justiça decidiu a favor da empresa, resultando no despejo na quarta tentativa de execução.
Com mobilidade reduzida e 50% de incapacidade, Maricarmen deixou o apartamento em uma cadeira de rodas, sendo levada ao hospital para um check-up médico antes de se mudar para a casa de familiares. O caso gerou protestos de ativistas que se reuniram em frente ao edifício, clamando por justiça e denunciando a situação crítica do mercado imobiliário espanhol, onde o acesso à moradia se torna cada vez mais desafiador.
A advogada de Maricarmen, Beatriz Duro, criticou a falta de responsabilidade das autoridades, afirmando que “aqui, vão passando a bola, ninguém assume a responsabilidade e todos dizem que é de outras pessoas”. O caso também destacou os contratos de locação antiga, que, embora garantam preços baixos, estão sujeitos a novas regras que dificultam a continuidade do aluguel em caso de falecimento do inquilino.
Maricarmen morou no apartamento desde 1956, quando seu pai assinou o contrato de aluguel. Após a morte do pai e da esposa dele, o contrato passou para Maricarmen. Até então, ela pagava 500 euros mensais, um valor muito inferior ao preço de mercado atual. Com a mudança de proprietário, a nova empresa exigiu um aumento significativo no aluguel, que chegou a 2.650 euros mensais, um valor que superava sua aposentadoria de 1.350 euros.
Após a recusa de Maricarmen em aceitar a oferta de compra do apartamento por 247 mil euros, a empresa atualizou o aluguel e exigiu o despejo. O caso gerou uma onda de apoio, com ativistas e simpatizantes acampando em frente ao edifício na noite anterior ao despejo. Entre eles, estavam figuras conhecidas como o ator Carlos Bardem e a cantora Ana Belén, que se uniram ao clamor por justiça.
A polícia, com mandado judicial, foi chamada para executar o despejo, resultando em confrontos com os manifestantes. A Delegação do Governo afirmou que os agentes agiram conforme a lei. Em junho, a Comissão de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU solicitou a suspensão do despejo enquanto o caso era examinado, pedindo uma alternativa de moradia adequada para Maricarmen.
A situação de Maricarmen ressoou na sociedade espanhola, levantando questões sobre a proteção dos inquilinos e a necessidade de reformas no sistema de habitação. A solidariedade em torno de seu caso demonstrou que a luta por moradia digna é uma questão urgente e relevante, que precisa ser abordada com seriedade pelas autoridades.




