A instalação de data centers pela empresa de inteligência artificial xAI, de Elon Musk, no Tennessee, está gerando polêmica devido à operação de turbinas movidas a gás natural sem as devidas licenças federais de qualidade do ar. Segundo comunicações entre reguladores e representantes da empresa, foram instaladas 59 turbinas para o projeto Colossus 2, que podem emitir até 4.000 toneladas curtas de monóxido de carbono por ano, um poluente que compromete a oxigenação do corpo. Essas emissões estão localizadas próximas a comunidades predominantemente negras, que já enfrentam altas taxas de doenças pulmonares, conforme análise da Reuters.
As descobertas revelam um cenário alarmante, onde a crescente demanda por energia para data centers de inteligência artificial está levando as empresas a construir usinas fora da rede elétrica, em um ritmo que supera a capacidade de fiscalização ambiental. A quantidade de turbinas não licenciadas identificadas pela Reuters é quase o dobro do que a xAI havia reconhecido publicamente. A empresa alega operar 27 turbinas não licenciadas e defende que as licenças não seriam necessárias. A maioria das turbinas está situada no Mississippi, próximo à divisa com o Tennessee, onde se localiza o data center.
Essas turbinas fazem parte de um número crescente de usinas de energia fora da rede que estão sendo propostas ou construídas em todo o país. Muitas vezes, as autoridades locais aceleram as aprovações em um curto espaço de tempo, sem os estudos ambientais e audiências públicas que normalmente são exigidos para projetos de geração de energia conectados à rede. Em março, por exemplo, reguladores ambientais do Mississippi concederam licença para a instalação permanente de 41 turbinas movidas a gás para o Colossus 2, apenas três semanas após a única audiência pública sobre o projeto.
O projeto é um dos maiores de energia fora da rede para data centers, segundo Ben King, analista do Rhodium Group. Ele destaca que a quantidade de gás instalada em um único local é sem precedentes. As comunicações analisadas pela Reuters mostram que a xAI instalou 57 turbinas fora da rede em Southaven, Mississippi, logo após a divisa estadual do data center, que suporta o chatbot Grok e outros sistemas de inteligência artificial.
Grupos de direitos civis, como a NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor) e o Southern Environmental Law Center, processaram a xAI em abril, argumentando que as turbinas produzem emissões que devem estar sujeitas à Lei Federal do Ar Limpo e não deveriam operar sem as licenças necessárias. Eles afirmam que as emissões estão poluindo residências, escolas e igrejas em comunidades historicamente marginalizadas. Patrick Anderson, advogado do Southern Environmental Law Center, destacou a gravidade da situação, afirmando que “a escala disso é impressionante” e que se trata de uma violação que ameaça a saúde pública.
A obtenção de uma licença da Lei do Ar Limpo teria exposto o projeto da xAI a uma revisão extensa e à possibilidade de comentários públicos, um processo que poderia levar anos. No entanto, tanto os reguladores ambientais do Mississippi quanto a xAI argumentaram que as turbinas estão isentas de licenciamento, pois são consideradas “móveis” e destinadas a operar no local por menos de um ano. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) afirmou que mesmo as turbinas temporárias que excedem os limites de emissões devem obter licenças, mas está considerando mudanças que permitam “flexibilidades regulatórias” para unidades portáteis, enquanto ainda protegem a saúde pública.
O Departamento de Justiça dos EUA também se manifestou sobre o processo, indicando que restringir as turbinas poderia ameaçar interesses de segurança nacional, uma vez que os sistemas da xAI apoiam operações militares, incluindo aquelas relacionadas ao Irã. O desfecho do processo movido por grupos de direitos civis pode definir como as leis ambientais se aplicam ao setor de inteligência artificial, que está em rápida expansão e onde as empresas buscam urgentemente fontes de energia para suportar a computação intensiva. Mary Rock, advogada sênior da Earthjustice, que representa a NAACP e o SELC, alertou que essa situação cria cenários em que o governo pode designar “zonas de sacrifício”, impondo a comunidades a necessidade de conviver com poluição do ar ilegal.
Essas questões ecoam as descobertas de um estudo de 2022 da UCLA e da Universidade Columbia, que revelou que comunidades onde bancos historicamente discriminavam candidatos negros a hipotecas enfrentam agora uma exposição elevada a poluentes de instalações de combustíveis fósseis. O impacto da poluição do ar, portanto, não é apenas uma questão ambiental, mas também uma questão de justiça social, refletindo as desigualdades que persistem em várias dimensões da sociedade.




