A corrida é uma atividade aeróbica que traz diversos benefícios para a saúde, especialmente para o sistema cardiorrespiratório e a disposição geral. Essa prática, amplamente recomendada, tem suas vantagens superando os riscos, mesmo para os mais velhos, como afirma o médico e professor Egídio Dórea, coordenador do programa 60+ da USP. Embora essa afirmação possa soar como uma verdade óbvia, é importante reafirmá-la, especialmente quando os noticiários frequentemente destacam os casos de mortes de corredores durante ou logo após a atividade. Essa lógica é semelhante à que se observa na aviação: enquanto os 150 mil voos comerciais diários são raramente noticiados quando ocorrem sem incidentes, os fracassos ganham destaque.
A corrida, no entanto, vai muito além de uma simples atividade física. Ela proporciona uma experiência única de deslocamento, permitindo que os praticantes percorram longas distâncias, muitas vezes além dos tradicionais 42,2 quilômetros da maratona, utilizando apenas seus próprios pés. Essa autonomia, aliada à liberação de endorfinas durante a atividade, transforma a corrida em um verdadeiro city tour, seja em uma competição ou em um passeio casual.
Outubro se destaca como um mês especialmente agradável para tirar o “veículo” da garagem e correr pelas ruas. É nessa época que muitas espécies nativas do Brasil florescem ou frutificam, tornando o ambiente ainda mais bonito. Em São Paulo, por exemplo, quem corre pelas ruas já se acostumou a pisar sobre o verdadeiro rio amarelo das flores da sibipiruna, uma espécie comum na mata atlântica. Também é possível encontrar pitangas nos pés das árvores durante essa estação.
Entretanto, a arborização urbana no Brasil segue uma lógica colonialista, dominada por espécies exóticas como a tipuana, que, apesar de se adaptarem mais rapidamente, são mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos que temos observado nos últimos anos. Para enfrentar essa questão, o Ministério do Meio Ambiente lançou, neste ano, uma portaria que estabelece um plano nacional de arborização urbana, o PlaNAU. Este plano visa valorizar as espécies nativas e controlar as exóticas invasoras, com a meta de que, até 2045, mais moradores tenham três árvores ou mais ao redor de suas casas.
No entanto, o alcance desse programa é alvo de críticas. O botânico e paisagista Ricardo Cardim, um dos principais defensores da arborização urbana com espécies nativas no Brasil, aponta que falta ao programa uma obrigatoriedade de execução pelos municípios e um orçamento adequado. Ele defende a criação de uma agência nacional com força de lei que possa fiscalizar, pesquisar e promover a arborização urbana, além de um mecanismo que obrigue a compra de espécies nativas por parte do governo. “Sem isso, o melhor investimento agora seria educar as pessoas para que entendam a importância das árvores nas cidades”, afirma Cardim.
Assim, enquanto desfrutamos das belezas naturais que outubro nos oferece, é essencial refletir sobre a importância da arborização urbana e o papel que cada um de nós pode desempenhar na preservação e valorização das espécies nativas. Correr entre flores e árvores é um privilégio que devemos preservar, não apenas para nós, mas para as futuras gerações. Que outubro seja um mês de conscientização e ação em prol de um ambiente mais saudável e sustentável.


