Nos anos 80, o Brasil vivia um período de transição e desafios, e o universo da corrida não era diferente. O colunista Paulo Vieira, do Jornalistas que Correm, traz à tona memórias de uma época em que a corrida começava a ganhar espaço, mas ainda era marcada por dificuldades e inovações limitadas. Era um tempo em que a internet e a TV a cabo ainda eram sonhos distantes, e o cartão de crédito internacional era uma novidade que poucos conheciam.
A corrida, nesse contexto, começava a se popularizar com o surgimento de provas e a introdução de tênis leves, abaixo de 1 kg. As academias de ginástica, como a Companhia Athletica em São Paulo, também começaram a se destacar, oferecendo novas opções para os praticantes. No entanto, a referência mais forte da época era o “Guia Completo da Corrida”, escrito pelo americano James Fixx, que se tornou um best-seller tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Fixx, que perdeu 30 quilos correndo, via na atividade uma solução para diversos problemas de saúde, embora sua história terminasse tragicamente aos 52 anos, quando morreu durante uma corrida.
O espírito de “faça você mesmo” que permeava o livro de Fixx inspirou muitos, incluindo o próprio Paulo Vieira, que começou a correr em um cenário onde poucos ao seu redor compartilhavam da mesma paixão. As corridas eram momentos de confraternização, onde os corredores se cumprimentavam nas ruas, e a atividade era conhecida como “cooper”, em homenagem ao preparador físico Kenneth Cooper, criador do famoso teste de 12 minutos.
Vieira recorda suas primeiras corridas, que aconteciam em trajetos como a Avenida Sumaré e o Parque Ibirapuera. Eram momentos simples, mas repletos de significado, que traziam à tona a camaradagem entre os corredores. Em uma dessas corridas, ele participou de uma prova longa, possivelmente uma meia maratona, usando um tênis que não era ideal, mas que se tornou parte de sua história. A experiência de correr descalço após desistir do calçado apertado foi uma revelação, mesmo sem saber que estava praticando o que hoje chamamos de barefoot running.
Os anos 80, portanto, foram um marco na história da corrida no Brasil. Uma época que, apesar das dificuldades, viu o surgimento de uma cultura de saúde e bem-estar que se consolidaria nas décadas seguintes. A corrida, que começou como uma atividade marginal, se transformou em um fenômeno popular, moldando hábitos e estilos de vida de milhares de pessoas. As memórias de Vieira servem como um lembrete de como o passado influencia o presente, e de que cada passo dado nas ruas é parte de uma longa jornada que continua a evoluir.



