O comércio varejista brasileiro enfrenta um momento desafiador, eliminando 45,9 mil vagas com carteira assinada entre janeiro e junho de 2026. Esse número representa o maior corte para um primeiro semestre desde o início da pandemia, enquanto o mercado de trabalho em geral criou 921 mil empregos no mesmo período, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
Especialistas apontam que essa situação é resultado de uma “tempestade perfeita”, onde fatores como juros altos, a desaceleração da economia, a popularização das apostas online e a migração dos consumidores para o comércio eletrônico estão pressionando as vendas do varejo. A previsão é que o setor continue a apresentar um desempenho fraco nos próximos meses.
O cenário macroeconômico adverso tem impactado as margens e as vendas, enquanto a recente demissão de cerca de 3.000 funcionários pela Casas Bahia, que entrou em recuperação judicial e fechou 298 lojas, agrava ainda mais a situação. No primeiro semestre, o comércio varejista, que representa 68% do total de vagas do setor, gerou novos postos de trabalho apenas em março, maio e junho. Em comparação, no mesmo período do ano anterior, foram criadas 23,7 mil vagas.
Ao analisar os dados por segmentos, o comércio foi o único setor a registrar demissões no primeiro semestre, com uma perda de 3.500 vagas. Em contraste, outros setores como serviços, construção e indústria apresentaram crescimento no número de empregos. O comércio de automóveis e motos, por sua vez, se beneficiou do aumento no uso de aplicativos de entrega e transporte, ajudando a compensar as perdas do varejo.
A alta nos juros também tem dificultado o financiamento ao consumo, especialmente para bens duráveis, como eletroeletrônicos e móveis, que dependem de parcelamento. Dados do Banco Central indicam que a taxa de juros para pessoas físicas com recursos livres alcançou 64% ao ano em junho, um aumento em relação ao ano anterior. Os juros do cartão de crédito também subiram, atingindo 97,4% ao ano.
As lojas de vestuário e acessórios foram as mais afetadas, com a eliminação de 30,9 mil vagas nos primeiros seis meses do ano, representando mais de dois terços do saldo negativo do setor. As lojas de calçados e os supermercados também enfrentaram cortes significativos, com 11,3 mil e 5,6 mil vagas eliminadas, respectivamente, devido à crescente concorrência do comércio eletrônico.
Os especialistas acreditam que o comércio varejista deve encerrar 2026 com um saldo líquido de vagas formais próximo de zero, uma vez que o segundo semestre historicamente apresenta um aumento nas contratações. No entanto, a tendência é que o emprego no setor continue fraco, com o avanço das apostas online impactando diretamente as vendas de vestuário. Um estudo da Peers Consulting revelou que 23% dos apostadores reduziram gastos com roupas e calçados para direcionar recursos às apostas, enquanto 19% cortaram despesas em supermercados.
Além disso, o endividamento elevado da população, que chega a 49,8% da renda, limita a capacidade das famílias de assumir novos compromissos financeiros, mesmo com a taxa de desemprego em níveis baixos. O movimento de migração para o comércio eletrônico também contribui para a diminuição de vagas no varejo físico, com a contratação se deslocando para setores de serviços como logística e transporte.
Diante desse cenário, as grandes varejistas desempenham um papel crucial na diminuição do número de lojas físicas, refletindo uma mudança estrutural no mercado. O comércio varejista, que historicamente foi um pilar do emprego, enfrenta desafios significativos, e a adaptação a essa nova realidade será essencial para sua recuperação.



