O governo dos Estados Unidos anunciou a classificação das facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como “Organizações Terroristas Estrangeiras” (FTO, na sigla em inglês). A decisão, comunicada por Marco Rubio, secretário de Estado durante o governo de Donald Trump, entrará em vigor nesta sexta-feira (5). Apesar da resistência do governo Lula, a trajetória das duas facções justifica essa classificação. O PCC e o CV acumulam mais de três décadas de ações que vão além do tráfico de drogas, incluindo assassinatos de agentes do Estado, sequestros de jornalistas e ataques coordenados em escala estadual. Um dos episódios mais emblemáticos da capacidade operacional do PCC ocorreu em maio de 2006, quando a facção coordenou uma ofensiva simultânea em São Paulo, paralisando a maior metrópole do país, com mais de 10 milhões de habitantes. A onda de ataques, rebeliões e atentados promovidos pelo PCC resultou em 564 mortes entre os dias 12 e 21 de maio, sendo 505 civis e 59 agentes públicos. Durante esse período, mais de 70 rebeliões ocorreram em unidades penitenciárias, e prédios públicos, como delegacias e agências bancárias, foram alvos de tiros e explosões. A retaliação foi desencadeada pela transferência sigilosa de 765 presos ligados ao PCC para um presídio de segurança máxima, levando ao isolamento de Marcos Camacho, conhecido como Marcola, considerado o principal líder da facção. A imprensa também se tornou alvo das facções, que não fazem distinção entre agentes do Estado e civis. Em 2 de junho de 2002, o jornalista Tim Lopes, da TV Globo, foi capturado na favela Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, enquanto investigava denúncias de tráfico de drogas. Ele foi torturado e assassinado a mando de Elias Maluco, liderança do Comando Vermelho, com seu corpo encontrado carbonizado. Anos depois, em São Paulo, o PCC sequestrou o repórter Guilherme Portanova, exigindo a exibição de um vídeo com suas demandas por melhorias no sistema penitenciário como condição para a libertação. A escalada da violência e o padrão de ataques sistemáticos a autoridades que investigaram ou condenaram integrantes do PCC se tornaram evidentes ao longo das últimas duas décadas. Em 14 de março de 2003, o juiz-corregedor Antônio José Machado Dias foi assassinado por criminosos que o viam como um inimigo das lideranças do PCC. Em 2025, o ex-delegado geral da Polícia Civil de São Paulo, Ruy Ferraz Fontes, foi assassinado em um ataque planejado por integrantes do PCC que ele havia prendido anos antes. Outro episódio marcante ocorreu em novembro de 2024, quando um empresário delator foi executado a tiros no Aeroporto Internacional de Guarulhos, demonstrando a audácia da facção. O uso de drones armados pelo Comando Vermelho na operação Contenção, em outubro de 2025, também evidenciou a adoção de táticas militares, com traficantes utilizando drones adaptados para atacar agentes da polícia. Essa operação resultou em 121 mortes, incluindo quatro policiais, e mobilizou 2.500 policiais para cumprir mandados de prisão e busca e apreensão. As investigações indicam que o treinamento dos traficantes foi conduzido por um brasileiro que participou da guerra da Ucrânia, trazendo técnicas de combate e operação de equipamentos militares para os integrantes do CV. Essa escalada de violência e o uso de táticas militares modernas reforçam a percepção de que o PCC e o CV não são apenas facções criminosas, mas sim organizações que operam com características terroristas, justificando sua nova classificação. A situação da segurança pública no Brasil continua a ser um desafio, especialmente em estados onde a violência do crime organizado ameaça a estabilidade política e social. A classificação do PCC e CV como organizações terroristas pode ser um passo importante para o enfrentamento desse problema, mas a efetividade das ações ainda depende de uma estratégia integrada e do fortalecimento das instituições de segurança pública.


