A crescente demanda por canetas emagrecedoras ilegais no Brasil esconde uma complexa rede criminosa que se profissionaliza a cada dia. O que muitos consumidores não percebem é que, ao adquirir esses produtos em camelôs ou grupos de bairro, tornam-se involuntários clientes do crime organizado. Essa situação é evidenciada pela recente apreensão de 165,6 mil unidades de medicamentos para emagrecimento pela Polícia Federal (PF) entre janeiro e junho deste ano, um número quase três vezes maior do que as 60,9 mil unidades recolhidas durante todo o ano de 2025.
O Paraná lidera as apreensões, respondendo por 56,2% do total, seguido por São Paulo. A PF registrou apreensões em 26 estados, com exceção de Tocantins, demonstrando a amplitude do problema. A fiscalização tem encontrado métodos cada vez mais criativos de transporte, como o caso de um motorista que escondia remédios para emagrecer dentro da bota.
O crescimento do contrabando de medicamentos emagrecedores supera até mesmo o de cigarros, um mercado ilegal consolidado no Brasil. Em uma operação em julho, a Receita Federal apreendeu cerca de 5.820 ampolas de medicamentos em um veículo em São Miguel do Iguaçu, no Paraná, com uma carga avaliada em aproximadamente R$ 800 mil. Além disso, a PF também encontrou 273 ampolas de tirzepatida no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, provenientes de Foz do Iguaçu.
Dados da Receita Federal mostram que, no primeiro semestre de 2026, foram apreendidas 158,3 mil canetas emagrecedoras, mais do que o dobro das 78,7 mil recolhidas durante todo o ano anterior. A cidade de Foz do Iguaçu se destaca, concentrando 71,6 mil canetas apreendidas, representando 45,2% do total nacional. Esse crescimento é atribuído à estrutura de distribuição que se desenvolveu na região, com depósitos que vendem diretamente aos contrabandistas.
Luciano Stremel Barros, presidente do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf), explica que a rapidez do avanço das canetas emagrecedoras ilegais está ligada às diferenças regulatórias e tributárias entre Brasil e Paraguai. Ele destaca que a facilidade de acesso a esses produtos ilegais é um fenômeno sem precedentes, comparável apenas a outras substâncias que rapidamente conquistaram o mercado ilegal.
Os produtos em questão, como Ozempic e Wegovy, contêm substâncias que atuam no controle da glicose e na saciedade, mas o que circula no mercado ilegal pode não ter a mesma eficácia ou segurança. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alerta que produtos adquiridos fora de farmácias autorizadas não garantem a procedência e podem apresentar riscos à saúde.
A busca por soluções rápidas para emagrecimento, impulsionada por pressões estéticas, tem levado pessoas comuns a se tornarem clientes desse mercado ilegal, criando uma falsa impressão de que o crime é menos significativo. Essa dinâmica ressalta a necessidade de uma fiscalização mais rigorosa e de uma conscientização maior sobre os riscos envolvidos na compra de medicamentos fora dos canais oficiais.


