Post: Como o Brasil impulsionou a revolução da inteligência artificial na matemática

A revolução da inteligência artificial na matemática é impulsionada por inovações brasileiras e levanta questões éticas e sociais.
Como o Brasil impulsionou a revolução da inteligência artificial na matemática

Na semana passada, tive a oportunidade de conversar com Marcelo Viana, diretor-geral do IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), sobre a transformação que a inteligência artificial (IA) está trazendo para o campo da matemática. Esta conversa se deu em um momento crucial, onde um dos chamados “problemas do milênio” foi resolvido com o auxílio da IA: as equações Navier-Stokes, que descrevem o comportamento de fluidos. O estudo, que se estende por 166 páginas, foi publicado sem autoria individual, apenas com a menção de “OpenAI” no topo, levantando questões sobre a identidade do coletivo que realiza tais descobertas.

O uso do pronome “nós” no estudo sugere um sentido de coletividade, mas quem realmente compõe esse “nós”? Seria uma referência ao conhecimento humano em geral ou a um grupo específico? O fato é que a utilização da IA na matemática nos leva a um novo território, onde as contribuições de brasileiros, como o cientista da computação e matemático Leonardo de Moura, se tornam fundamentais. Doutor pela PUC do Rio, Leonardo desenvolveu em 2013 a linguagem de programação Lean, que permite a descrição e a prova de problemas matemáticos por meio de computadores.

A importância do Lean é imensurável e seu impacto será percebido ao longo dos anos. Graças a essa linguagem, foram criadas bibliotecas de resoluções matemáticas que agora estão disponíveis em formato computacional. O Mathlib, a maior dessas bibliotecas, contém mais de 400 mil declarações, permitindo que a IA atue efetivamente na resolução de problemas complexos como o de Navier-Stokes.

Entretanto, a ascensão da IA na matemática tem gerado sentimentos mistos entre os profissionais da área. Enquanto alguns veem isso como uma oportunidade, outros expressam preocupações. Um grupo de 25 ganhadores da medalha Fields, incluindo o brasileiro Artur Avila, assinou uma carta alertando sobre o “Desalinhamento Severo da IA na Matemática”. Eles afirmam que a resolução de problemas matemáticos por empresas de IA pode prejudicar a matemática e sua comunidade. Essa preocupação é válida, pois um dos aspectos mais nobres da matemática é sua acessibilidade; tradicionalmente, ela poderia ser praticada apenas com lápis e papel. Agora, a realidade é diferente: a matemática moderna exige um poder computacional que muitos não têm.

O custo para resolver as equações de Navier-Stokes foi estimado em cerca de 22 milhões de dólares, o que representa aproximadamente 113 milhões de reais. Isso não apenas cria desigualdades dentro da comunidade matemática, mas também torna a matemática cada vez mais incompreensível para o público geral. O jovem matemático Logan Graves expressou essa angústia ao afirmar que a comunidade pode acabar se tornando como “monges”, dedicando suas vidas a entender um conhecimento que se torna cada vez mais inacessível, mesmo para os mais brilhantes.

A revolução que a IA está provocando na matemática é um reflexo de um fenômeno que provavelmente se repetirá em diversas áreas do conhecimento humano. Essa transformação não é apenas uma questão técnica, mas também um desafio ético e social que devemos enfrentar coletivamente. O futuro da matemática, assim como de muitas outras disciplinas, está em jogo, e é fundamental que a comunidade científica e a sociedade em geral se unam para discutir e moldar esse novo cenário.

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