A recente vitória da extrema direita na Saxônia-Anhalt marca um momento sem precedentes para a Alemanha do pós-guerra, segundo Marcus Böick, professor associado de História Alemã Moderna na Universidade de Cambridge. Para ele, a ascensão da AfD (Alternativa para a Alemanha) representa um “território desconhecido” que desafia as estruturas políticas estabelecidas desde 1949, criadas para evitar o retorno de partidos extremistas. “O sistema que foi projetado para prevenir a ascensão de um partido fascista ou nazista já não funciona após quase 80 anos”, afirma Böick em entrevista à Folha.
Apesar de considerar a situação “desesperadora”, o professor acredita que o resultado eleitoral era esperado. A estratégia de isolamento da AfD por parte de outros partidos se mostrou ineficaz, uma vez que o argumento de defesa da democracia não ressoou com os eleitores. “A AfD criou uma sensação de pertencimento entre aqueles que se sentem negligenciados desde a reunificação”, explica Böick. Ele destaca que, em sua cidade natal, a AfD alcançou quase 55% dos votos, um reflexo da insatisfação popular.
Böick também menciona o conceito de “Brandmauer”, um mecanismo que impede a cooperação com partidos extremistas, mas que parece estar se desgastando. Ele observa que, enquanto outros países, como a Áustria, conseguiram lidar com o legado nazista de maneira diferente, a Alemanha ainda enfrenta um dilema sobre como lidar com a AfD. “Os partidos tradicionais têm usado a defesa da democracia como argumento, mas isso se tornou um discurso fraco”, conclui o professor. Ele alerta que a situação atual pode ser um indicativo de que a política alemã está mudando, e que a AfD pode ter um papel central nesse novo cenário.




