Nos últimos anos, Caracas tem experimentado uma queda significativa nas taxas de criminalidade, uma mudança notável para uma cidade que já foi considerada a capital mundial dos assassinatos. A taxa de homicídios despencou, e os sequestros, que outrora eram comuns, praticamente desapareceram. Miguel Dao, um ex-negociador de sequestros e crítico do regime autoritário, observa que, apesar de a redução da criminalidade ser uma conquista, a sustentabilidade desse avanço é incerta. A nova sensação de segurança, embora bem-vinda, é marcada por uma realidade complexa e sombria.
A transformação na segurança de Caracas é vista como uma das maiores reviravoltas na América Latina. No entanto, essa mudança é frequentemente ofuscada por eventos em outros países da região, como El Salvador, onde o presidente Nayib Bukele implementou uma política de encarceramento em massa para reduzir a criminalidade. Em Caracas, a queda dos índices de criminalidade é atribuída a uma combinação de fatores, incluindo a migração em massa e a repressão violenta perpetrada pelo Estado.
Investigadores das Nações Unidas relataram que esquadrões policiais têm executado milhares de jovens, visando aqueles mais propensos a se envolverem com gangues. A migração de milhões de venezuelanos em busca de melhores condições de vida também contribuiu para a diminuição da criminalidade, já que muitos dos membros de gangues deixaram o país. Essa nova realidade é um reflexo de uma paz frágil, onde a sensação de segurança é acompanhada por um aumento nas violações de direitos humanos.
A vida em Caracas, que antes era marcada pelo medo constante, agora apresenta um cenário onde as pessoas podem passear pelas ruas e desfrutar da vida noturna em áreas que antes eram consideradas perigosas. No entanto, essa normalidade é estranha, pois muitos cidadãos e líderes evitam discutir abertamente a queda da criminalidade. Em vez disso, a prioridade parece ser a sobrevivência diária e o pagamento de contas, em um contexto onde as autoridades não se vangloriam dos avanços na segurança.
Luiz Izquiel, criminologista, destaca a ambivalência da situação, apontando que a brutalidade dos métodos utilizados pelo regime para controlar a criminalidade impede uma celebração aberta das conquistas. A comparação com El Salvador é inevitável, onde o presidente Bukele é frequentemente elogiado por suas políticas de segurança, enquanto em Caracas, o governo evita discutir suas táticas violentas.
Desde 2018, o governo de Nicolás Maduro tem implementado as chamadas Operações de Libertação do Povo, que envolvem incursões policiais militarizadas em comunidades de baixa renda. O objetivo declarado é desmantelar gangues armadas, mas a realidade é que essas operações têm resultado em execuções extrajudiciais. Entre 2018 e 2019, as forças de segurança venezuelanas mataram pelo menos 6.856 pessoas, muitas vezes manipulando as cenas de crime para justificar as mortes como resistência à autoridade.
Assim, a paz em Caracas é uma construção complexa, onde a redução da criminalidade é acompanhada por um aumento na repressão e na violência estatal. A cidade, que já foi sinônimo de medo, agora apresenta um novo rosto, mas a sombra da brutalidade do regime continua a pairar sobre suas ruas.



