Post: Bastidores da prisão de Lula: agente da PF revela detalhes em novo livro

Agente da PF revela detalhes da prisão de Lula em novo livro, retratando 580 dias de vigilância e política em Curitiba.
Bastidores da prisão de Lula: agente da PF revela detalhes em novo livro

A chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à cela na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, em abril de 2018, deu início a um período de vigilância e isolamento que durou 580 dias. Esses bastidores são detalhados no livro “Banho de sol: os 580 dias da prisão de Lula”, escrito pelo agente da PF Jorge Chastalo Filho. Publicado pela editora WMF Martins Fontes, a obra de 592 páginas apresenta uma narrativa cronológica, que começa antes da chegada de Lula à PF e abrange os preparativos para sua custódia até os episódios do cotidiano entre o ex-presidente e o agente.

O livro destaca que a transferência de Lula exigiu três dias de planejamento, com a elaboração de quatro planos para garantir a segurança da operação. Apesar da preparação, os policiais envolvidos ainda duvidavam da possibilidade de prisão do ex-presidente. Chastalo Filho relata: “Naqueles dias, não acreditávamos que Lula realmente seria preso”. A segurança também se estendia ao monitoramento de drones que sobrevoavam o prédio e ao gerenciamento da presença da imprensa, que, segundo o agente, proporcionou uma “primeira experiência desagradável”.

Durante o deslocamento de helicóptero entre o aeroporto Afonso Pena e a sede da PF, a comitiva enfrentou manifestações hostis. O agente recorda que, durante o voo, foram ouvidas frases como “joguem esse lixo pela janela” e “não o soltem nunca mais”. O piloto, incomodado com as ofensas, pediu respeito ao trabalho da equipe, ressaltando que as comunicações eram gravadas.

Ao chegar à cela, Lula entrou em silêncio e abatido. O espaço, que contava com uma cama de solteiro, uma mesa, uma cadeira e um armário, tinha janelas protegidas por grades, permitindo apenas uma abertura de dez centímetros. A primeira oportunidade de Lula sair ao ar livre ocorreu no quarto dia de prisão, em uma área cercada e sem aberturas laterais, que o ex-presidente comparou a uma jaula.

A relação entre Chastalo Filho e Lula se estreitou ao longo do tempo. O ex-presidente passou a chamar o agente de “querido” e fazia brincadeiras sobre seu cabelo. Em um gesto de cuidado, Chastalo decidiu encomendar refeições de um restaurante local, não por descontentamento com a comida da PF, mas por preocupação com a segurança alimentar. “Imaginei a possibilidade de alguém querer envenenar sua comida”, explica.

Durante a detenção, Lula fez pedidos simples, como uma bola de futebol para brincar com seu neto Arthur, que tinha apenas sete anos na época. As visitas familiares eram momentos de descontração, onde os dois costumavam desenhar juntos. Infelizmente, Arthur faleceu em abril de 2019, e Lula recebeu autorização para comparecer ao sepultamento. Outra ocasião em que Lula deixou a sede da PF foi para prestar depoimento ao então juiz Sergio Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba. O pedido para acompanhar o velório de seu irmão, Vavá, foi negado, alegando falta de tempo. As conversas entre Lula e o agente frequentemente giravam em torno de política, incluindo a operação Lava Jato. Chastalo Filho observa que as discussões eram predominantemente políticas, com poucas confissões pessoais guardadas. O processo editorial do livro envolveu a organização dos relatos e a adaptação do texto para o público geral, com a participação do jornalista Juca Kfouri, que conheceu Chastalo Filho durante uma visita a Lula em 2019.

A edição ficou sob a responsabilidade do jornalista Lino Bocchini, que ressaltou que Chastalo Filho começou a escrever antes da chegada de Lula à cela. A editora decidiu adiar o lançamento do livro até o fim do processo eleitoral, evitando que o conteúdo fosse utilizado como uma peça política. Com isso, o livro se torna um registro importante e reflexivo sobre um período conturbado da política brasileira, trazendo à tona não apenas a experiência de Lula, mas também a perspectiva de quem esteve ao seu lado durante esses dias difíceis.

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