Post: Turquia propõe meta de eletrificação global na COP31, mas ignora energias renováveis

Turquia propõe meta de eletrificação global na COP31, mas ignora fontes renováveis, gerando preocupações entre especialistas.
Turquia propõe meta de eletrificação global na COP31, mas ignora energias renováveis

A Turquia está se preparando para apresentar uma meta ambiciosa de eletrificação global durante a COP31, a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas que ocorrerá em novembro em Antália. O objetivo é aumentar a participação da eletricidade no consumo total de energia mundial de 23,4% para 35% até 2035. No entanto, a proposta não parece priorizar fontes renováveis de energia, o que tem gerado preocupações entre especialistas e ativistas ambientais.

O plano integra a Agenda de Ação, uma iniciativa coordenada pela presidência turca da conferência, que visa reunir ações voluntárias do setor privado. A Austrália, por sua vez, liderará a parte diplomática do evento, um formato inédito nas COPs. Apesar da relevância do tema, a eletrificação não está na agenda de negociações entre os quase 200 países participantes.

Atualmente, mais da metade da eletricidade gerada no mundo provém de combustíveis fósseis, com o carvão respondendo por 33,6% e o gás natural por 21,3%. A energia hidráulica, embora significativa, ocupa a terceira posição, seguida por fontes nucleares, eólicas e solares. Umit Sahin, chefe do Programa de Mudanças Climáticas do Centro de Políticas de Istambul, enfatiza que a meta da COP31 deve servir para promover a transição dos combustíveis fósseis, não para justificar um aumento no uso de gás natural ou energia nuclear.

“É fundamental que o compromisso com a eletrificação esteja alinhado com a redução gradual e justa do uso de combustíveis fósseis”, afirma Sahin. Taha Arvas, diretor-geral da Epias, operadora do mercado de energia da Turquia, reconhece que a diminuição dos preços das energias renováveis tem incentivado seu uso, mas ressalta que a segurança energética ainda depende de fontes fósseis. “A população quer eletricidade, e não se importa com as metas de carbono”, afirma Arvas.

A Turquia, que importa 95% do gás natural e 65% do carvão que consome, enfrenta um dilema. Apesar do crescimento das energias renováveis, que já representam 56% da geração de energia no país, as emissões de gases de efeito estufa no setor energético dobraram entre 2000 e 2024 devido ao aumento da demanda. O país se comprometeu a alcançar a neutralidade de carbono até 2053 e a atingir 120 GW de capacidade renovável até 2035, mas não possui um plano claro para reduzir o uso de carvão.

Sahin destaca que a presidência turca busca reduzir a dependência de combustíveis fósseis por meio da demanda, promovendo a eletrificação. No entanto, essa estratégia carece de uma abordagem mais progressista em relação às energias renováveis. Ozlem Katisoz, coordenadora da Climate Action Network na Turquia, acredita que a sociedade civil pressionará por uma maior inclusão de fontes renováveis na meta de eletrificação. “Esse será um dos principais focos, já que tanto a Turquia quanto a Austrália desejam priorizar a eletrificação na COP”, afirma Katisoz.

Alkim Bag, diretora do Centro de Transição Energética Shura, ressalta que, embora a Turquia tenha feito progressos na descarbonização, a eletrificação permanece estagnada em torno de 22% há anos. “A ligação entre eletrificação e a redução dos combustíveis fósseis deve ser mais explícita”, afirma Bag. No Brasil, a eletrificação em 2025 foi de 20,9%, com 86,6% da eletricidade proveniente de fontes renováveis, segundo a Empresa de Pesquisa Energética.

Rosana Santos, diretora-executiva do Instituto E+ Transição Energética, argumenta que o debate sobre eletrificação deve incluir indústrias e ir além dos veículos elétricos. “A transição deve ser feita de forma que traga competitividade à economia”, afirma Santos. A atual tensão geopolítica é um dos fatores que levam a Turquia a priorizar essa pauta, buscando um tema com convergência que permita diálogo.

Por enquanto, não há discussões sobre petróleo na agenda da COP31 em Antália. A presidência brasileira da COP30, realizada em Belém em 2025, deve divulgar em breve um roteiro para reduzir a dependência de combustíveis fósseis, embora tenha enfrentado resistência de países produtores de petróleo. Sahin acredita que a Turquia e a Austrália têm a responsabilidade de dar continuidade a esse trabalho e destacar a importância da transição energética, que pode beneficiar a economia turca ao reduzir a dependência de importações e mitigar os impactos da volatilidade dos preços de petróleo e gás.

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