A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi recebida com entusiasmo por Pequim, que a interpretou como um revés para a influência dos Estados Unidos na América Latina. O porta-voz da chancelaria chinesa, Guo Jiakun, parabenizou Lula em uma declaração feita na segunda-feira (27), enquanto a oposição bolsonarista ainda tentava contestar o resultado das eleições. Com a vitória do petista, a China vê uma oportunidade de fortalecer suas relações na região, que nos últimos anos se inclinaram mais para a direita, especialmente sob a administração de Jair Bolsonaro.
Na terça-feira (27), Xi Jinping também se manifestou, reforçando o apoio da China ao novo governo brasileiro. A agência estatal Xinhua destacou o discurso de vitória de Lula, enfatizando a importância da ajuda popular para resistir a interferências externas. Por outro lado, o Diário do Povo, um dos principais veículos de comunicação da China, observou que, apesar da vitória de Lula, os bolsonaristas conseguiram conquistar a maioria nos governos estaduais e a maior bancada no Congresso Nacional, o que pode complicar a governabilidade do novo presidente.
A análise sobre a situação política no Brasil foi aprofundada por Li Chen, pesquisador da Universidade de Ciência e Tecnologia do Sudoeste, em um artigo publicado no portal do grupo Phoenix, de Hong Kong. Li argumenta que Lula inicia seu quarto mandato cercado por desafios, tendo que negociar ministérios e recursos em troca de apoio, o que pode levar seu governo a uma postura mais conservadora. Ele também menciona a Rockbridge Network, ligada ao vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, que supostamente financiou a candidatura de Bolsonaro, sugerindo que a influência externa ainda é um fator relevante na política brasileira.
Apesar das dificuldades, Li acredita que os governadores de direita, que dependem do agronegócio e dos investimentos chineses, devem manter relações amistosas com Pequim. Para ele, a China precisa entender a divisão interna do Brasil e estabelecer canais de comunicação com os novos políticos que estão surgindo no cenário político. Desde 2023, a relação entre Brasil e China tem sido mediada principalmente pelo governo federal, e com Lula afirmando que este será seu último mandato, Pequim tem um prazo de quatro anos para se adaptar à nova realidade política e formar alianças com a direita que cresce no Congresso e nos estados.
A importância dessa relação se torna ainda mais evidente considerando que, desde a eleição de Bolsonaro, a China havia enfrentado uma retração nas suas interações com o Brasil. A vitória de Lula representa uma chance de reverter essa tendência, mas o novo presidente terá que navegar por um cenário político complexo, onde a oposição bolsonarista ainda detém poder significativo.
Além disso, a China também está atenta a outros aspectos da política global, como a recente aprovação do plano da Temu pela Comissão Europeia para corrigir violações à Lei de Serviços Digitais. A varejista chinesa foi multada em 200 milhões de euros por não impedir a venda de produtos ilegais, e agora terá que implementar medidas rigorosas de moderação de conteúdo. Essa situação reflete a crescente pressão sobre empresas chinesas que atuam no exterior, especialmente em um contexto onde o comércio eletrônico transfronteiriço enfrenta desafios regulatórios em diversas partes do mundo.




