A falta de um acordo entre os Estados Unidos e o Irã nas próximas semanas sobre um plano apoiado pela ONU para o transporte de fertilizantes pelo estreito de Hormuz pode desencadear uma crise de segurança alimentar em diversas regiões da Ásia e da África. A advertência foi feita por Jorge Moreira da Silva, subsecretário-geral da ONU, em uma entrevista realizada em Bangkok, onde participava das reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial.
Em março, as Nações Unidas formaram uma força-tarefa com o objetivo de facilitar a passagem de fertilizantes pelo estreito. Embora o mecanismo ainda não tenha sido implementado, Moreira da Silva afirmou que ele poderia ser ativado em um prazo de 7 a 10 dias após a formalização de um acordo entre Washington e Teerã. “É absolutamente crucial fechar o acordo nas próximas semanas. Caso contrário, perderemos a época de plantio”, destacou o subsecretário.
A Casa Branca, o Departamento de Estado dos EUA e a Embaixada do Irã em Bangkok não se manifestaram sobre a questão até o momento. O Irã, por sua vez, tem buscado aumentar seu controle sobre o estreito de Hormuz, especialmente após os ataques dos EUA e de Israel em fevereiro, utilizando essa passagem estratégica como uma forma de pressão sobre Washington, que mantém um bloqueio naval aos portos iranianos.
Historicamente, o estreito de Hormuz é vital para o comércio global, movimentando cerca de um terço da ureia comercializada no mundo, o fertilizante mais utilizado, além de quase metade do enxofre transportado por via marítima, um insumo essencial. Desde o início do conflito, os embarques de fertilizantes da região do Golfo estão praticamente paralisados, conforme relatou o Instituto Internacional de Pesquisa em Política Alimentar, com sede em Washington.
A interrupção no transporte de fertilizantes pode levar a um aumento significativo nos preços das commodities. Um relatório da Câmara de Comércio Internacional, divulgado em agosto, indicou que os preços dos cereais poderiam subir até 81%, enquanto os produtos de origem animal poderiam ver um aumento de 30%. Moreira da Silva alertou que, se a época de plantio for perdida, a produtividade agrícola poderá cair drasticamente, resultando em um impacto considerável sobre os preços.
O plano da ONU prevê a passagem de cinco navios por dia pelo estreito de Hormuz, o que poderia garantir o fluxo de fertilizantes para países em situação crítica. Um centro de coordenação em Omã seria responsável por registrar os navios e coordenar a passagem segura, com monitores da ONU trabalhando em conjunto com as autoridades locais nos portos do Golfo para verificar o carregamento das cargas.
Os navios seriam rastreados durante o trânsito, e inspeções adicionais poderiam ser realizadas caso surgissem preocupações sobre um navio ou sua carga. No entanto, as negociações entre Irã e Estados Unidos estão estagnadas, devido às condições impostas por Teerã e à insistência de Washington em abordar o programa nuclear iraniano.
Além da crise no estreito de Hormuz, a situação no Mar Negro também se deteriorou, com navios de carga sendo alvos de ataques, e uma ofensiva de militantes houthis, apoiados pelo Irã, ao longo de rotas marítimas no Mar Vermelho, intensificando a ameaça à segurança alimentar global. “Estamos testemunhando uma concentração de fatores que podem agravar a crise alimentar”, concluiu Moreira da Silva, referindo-se à crise climática e às interrupções simultâneas em pontos de estrangulamento marítimos.




