A Faculdade de Direito da USP, com quase 200 anos de tradição, criou uma comissão para discutir o ensino do direito em um mundo cada vez mais influenciado pela inteligência artificial (IA). Essa reflexão é necessária em todas as instituições de ensino, pois a IA está mudando a forma como aprendemos e praticamos a profissão. Durante a apresentação que iniciei na série de seminários organizados pela comissão, um ponto paradoxal se destacou. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos revelou que 72% dos estudantes de direito consideram o letramento em IA uma competência essencial. No entanto, 74% expressam preocupações de que depender da IA possa prejudicar sua formação. Essa dualidade é compreensível, considerando que um estudo do MIT mostrou que o uso da IA na escrita pode resultar em uma atividade cerebral 54% menor, levando a um fenômeno conhecido como débito cognitivo. Isso significa que, ao utilizar a IA para redigir textos, os alunos podem não dominar o conteúdo produzido. Esse fenômeno foi corroborado por uma pesquisa na China, que indicou que, enquanto as notas dos deveres de casa aumentavam, as notas das provas caíam. Os alunos, ao utilizarem a IA para realizar suas tarefas, chegavam despreparados para as avaliações. Para lidar com essa situação, algumas instituições adotaram medidas drásticas. A Escola de Direito da Universidade de Chicago, por exemplo, decidiu proibir o uso de IA nas disciplinas centrais do primeiro ano, além de banir laptops e celulares em sala de aula. Essa abordagem visa garantir que os alunos desenvolvam o raciocínio jurídico sem a tentação de delegar tudo à tecnologia. A decisão de Chicago faz sentido, especialmente considerando que muitos alunos ingressam na faculdade com apenas 18 anos. A universidade pode se tornar um dos últimos locais onde decisões jurídicas são lidas e escritas integralmente, sem auxílio da IA. Esse espaço é fundamental para que os estudantes aprendam os conceitos essenciais da profissão, o que pode se transformar em uma vantagem competitiva. Os três pilares que proponho para essa formação são: pensar com, sem e sobre a IA. Além dos ambientes protegidos da tecnologia, é necessário criar espaços onde a IA seja não apenas aceita, mas essencial. Os alunos devem ser educados sobre como a tecnologia funciona, suas capacidades e limitações. Uma inovação interessante na Universidade de Chicago é a exigência de que todos os alunos defendam oralmente seus trabalhos, permitindo avaliar se realmente compreendem o que estão apresentando. Na NYU, há até provas orais realizadas por IA, onde um agente de voz questiona os alunos com critérios de correção definidos pelos professores. A mudança no cenário educacional é rápida. Atualmente, 55% das escolas de direito americanas já oferecem disciplinas sobre IA, 83% utilizam a ferramenta em clínicas jurídicas e 85% planejam reformular seus currículos em função da tecnologia. Nesse contexto, não podemos nos dar ao luxo de permanecer inativos. Proteger a atuação dos advogados é crucial, mas também é essencial integrar a IA à formação, sem promover o emburrecimento dos futuros profissionais.




