O Brasil vive um momento singular em sua história política, marcado pela primeira eleição do que o economista britânico Guy Standing denomina de “precariado”. Em entrevista à Folha, Standing, que popularizou o conceito em seu livro “O Precariado: A Nova Classe Perigosa”, destaca como essa nova classe social, caracterizada pela insegurança econômica e pela fragilidade de direitos trabalhistas, está começando a moldar o cenário eleitoral brasileiro.
Standing explica que o surgimento do precariado está ligado ao avanço das políticas neoliberais desde os anos 1980, que resultaram em um aumento da desigualdade e na desproteção dos trabalhadores. “O Brasil é um caso extraordinário. Infelizmente, eu chamaria a sua atual eleição presidencial de a primeira eleição do precariado, porque ela está sendo decidida por essa nova estrutura de classes”, afirma.
O economista observa que a insatisfação com as políticas da esquerda e a crescente insegurança financeira têm levado muitos a buscar alternativas na direita. “A percepção de que o precariado estava surgindo como a nova classe de massa veio quando a revolução econômica neoliberal começou a produzir muito mais desigualdade e insegurança”, explica. Para ele, essa nova dinâmica pode ter implicações profundas para o futuro político do país.
Standing também menciona que a ascensão de líderes populistas, como Donald Trump, é um reflexo dessa mudança. “Infelizmente, meu alerta se concretizou”, diz, referindo-se ao impacto que o precariado pode ter nas democracias contemporâneas. Ele ressalta que, embora a velha esquerda tenha falhado em reconhecer o potencial transformador dessa classe, o precariado pode ser uma força significativa nas eleições e na política futura.
A análise de Standing sobre o Brasil não se limita apenas ao contexto eleitoral. Ele aponta que a globalização da luta do precariado mostra que as questões de insegurança econômica e direitos trabalhistas são universais e precisam ser abordadas de forma mais incisiva. “O crescimento dessa nova classe pode provocar profundas mudanças políticas”, conclui. A reflexão do economista britânico nos leva a questionar como as mudanças sociais e econômicas estão moldando o futuro da política brasileira e quais serão os desdobramentos dessa nova realidade.



