Quando eu tinha cerca de oito anos, sentava ao lado do meu pai enquanto ele assistia ao noticiário econômico na televisão. Eu observava as imagens, sem entender muito, e sempre perguntava sobre termos como PIB (Produto Interno Bruto), como se calculava o desemprego e por que as moedas mudavam de valor. Meu pai, paciente, explicava tudo com exemplos práticos, fazendo com que aquelas palavras se transformassem em conceitos que eu poderia compreender, como o preço de um produto ou o valor de um salário. Foi assim que meu interesse pela economia começou a se formar.
Em uma dessas conversas, perguntei quanto um dólar valia em reais. Ele me explicou que a cotação mostrava apenas parte da resposta, já que o valor de uma moeda não revela o quanto ela pode comprar. Para ilustrar essa diferença, ele usou o índice Big Mac, uma ferramenta que tornou-se popular para entender a paridade do poder de compra entre diferentes países.
Mas por que um Big Mac? O sanduíche, que possui uma receita similar em diversas partes do mundo, foi escolhido por Pam Woodall, jornalista da revista The Economist, para criar o índice em 1986. Essa abordagem lúdica ajuda a entender que as taxas de câmbio tendem a se ajustar ao longo do tempo, de modo que o preço de um mesmo produto em diferentes países se aproxime.
Embora a receita do Big Mac seja a mesma, o preço varia de acordo com as características econômicas locais. Fatores como o custo dos ingredientes, que são influenciados pelo comércio internacional, e os custos de trabalho, aluguel, energia e impostos, impactam o valor final. Como o lanche é produzido onde é consumido, essas diferenças se refletem diretamente no preço.
Além disso, países com economias mais produtivas tendem a pagar melhores salários, mesmo em funções que não variam muito de um lugar para outro. Por exemplo, um atendente em Nova York pode não preparar um pedido de forma muito diferente de um atendente em São Paulo, mas sua remuneração é significativamente maior devido ao mercado de trabalho americano.
Esse fenômeno é conhecido como efeito Balassa-Samuelson e ajuda a explicar por que produtos similares custam mais em países ricos e por que as moedas de economias de menor renda frequentemente parecem subvalorizadas. Atualmente, o preço do Big Mac no Brasil é de R$ 23,90, enquanto nos Estados Unidos é de US$ 6,22. Com a cotação de R$ 5,08 por dólar, o preço brasileiro equivale a cerca de US$ 4,70, o que indica que o real está 24% subvalorizado em relação ao dólar.
Isso significa que, ao converter os valores pelo câmbio de mercado, o mesmo produto custa 24% menos no Brasil. Contudo, essa análise ainda mistura o valor da moeda com o fato de que países de renda mais baixa também costumam ter preços mais baixos.
Para separar essas variáveis, estima-se quanto o Big Mac deveria custar de acordo com o PIB per capita de cada país. Ao considerar esse fator, a desvalorização do real cai de 24% para cerca de 6%. Isso indica que a maior parte do desconto no preço do lanche no Brasil reflete o nível de preços esperado em uma economia de menor renda, enquanto uma parcela menor está relacionada à moeda em si. Como juros, riscos e movimentos de capital também influenciam a cotação, esses 6% descrevem um momento específico, sem prever o futuro do dólar.
Os salários mais baixos que ajudam a reduzir o preço em dólares limitam o poder de compra de quem recebe na moeda local. Uma pesquisa do Fed de St. Louis mostrou que, em locais onde o Big Mac custa mais, os trabalhadores frequentemente precisam de menos tempo para comprá-lo, pois também ganham mais. Assim, o Brasil pode parecer barato para quem chega com dólares, mas continua caro para quem vive e trabalha aqui.
Quarenta anos depois, o índice Big Mac continua relevante, talvez pela mesma razão que as explicações do meu pai ficaram gravadas na minha memória. Enquanto a cotação aparece na televisão como um número que sobe ou desce, o sanduíche revela a relação entre preços e salários, mostrando o quanto o nosso real realmente consegue comprar.




