Nos últimos anos, diversas empresas nos Estados Unidos têm buscado se reinventar ao adicionar referências à inteligência artificial em seus nomes. Desde 2023, pelo menos 28 delas mudaram suas marcas, tentando surfar a onda do interesse crescente dos investidores por tecnologias inovadoras. No entanto, a maioria dessas companhias não conseguiu sustentar os ganhos de valorização que experimentaram após as mudanças, conforme revela uma análise do Financial Times.
Um exemplo notável é a Allbirds, anteriormente conhecida por seus calçados esportivos, que recentemente alterou seu nome para Smartbird. Essa mudança faz parte de uma estratégia de transição para o mercado de servidores de alta performance, equipados com chips de IA. A decisão reflete uma tendência mais ampla, onde empresas de setores variados, desde tratamento de câncer até mineração, estão se rebranding para incluir termos relacionados à IA.
O entusiasmo dos investidores em torno da inteligência artificial resultou em um aumento significativo nas ações de tecnologia. Após as mudanças de nome, as empresas que se rebranding experimentaram uma valorização combinada de US$ 8,7 bilhões (cerca de R$ 47,7 bilhões), representando um crescimento de 106% em comparação com a semana anterior aos anúncios. Contudo, essa valorização não se mostrou duradoura, com mais da metade dos ganhos evaporando até o final do mês passado. Sete das empresas afetadas agora apresentam uma valorização de mercado inferior à que tinham antes de anunciarem suas mudanças.
Segundo Owen Lamont, gestor de portfólio da Acadian Asset Management, essas alterações de nome podem ser vistas como uma tentativa de captar o interesse dos investidores em um setor que está em alta. “O mercado de ações americano se tornou mais dominado por investidores de varejo e mais suscetível à influência das redes sociais e aplicativos de negociação”, observa Lamont. Ele acrescenta que essas mudanças visam atrair investidores de varejo, mas sua eficácia a longo prazo é incerta.
A maioria das empresas que mudaram de nome durante essa onda são de microcapitalização ou de balcão, muitas das quais já enfrentavam dificuldades financeiras. Por exemplo, a Hoth Therapeutics, que se rebatizou para Rocket One, anunciou um novo foco em tecnologia de semicondutores, após seu auditor levantar dúvidas sobre sua capacidade de operar. Da mesma forma, a Myseum, que se tornou Myseum.AI, reportou receitas de apenas US$ 550 (cerca de R$ 2.811) em 2025.
No Reino Unido, a fintech Investment Evolution Credit também se rebranding para Amazing AI, mas acabou saindo da bolsa em janeiro deste ano. Outras empresas, como a Cipher Digital, mudaram de foco da mineração de criptomoedas para a construção de data centers, aumentando sua capitalização de mercado em cerca de 50% após a mudança.
Historicamente, empresas que mudaram seus nomes durante períodos de crescimento tecnológico, como a bolha das pontocom nos anos 90, também experimentaram aumentos significativos em suas valorizações. Um estudo de 2000 mostrou que ações que adicionaram “com” ao nome durante esse período tiveram retornos excedentes de 72% em até 10 dias após o anúncio. No entanto, a análise do FT sugere que, até o momento, o atual boom da IA não está gerando um número maior de mudanças de foco do que em ciclos anteriores.
A Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) começou a investigar o que chama de “AI washing”, tomando medidas contra várias empresas por enganar investidores sobre o uso real da tecnologia. Sean Fulton, advogado especializado em IA, alerta que adicionar “IA” ao nome de uma empresa sem uma base sólida pode atrair o escrutínio da SEC.
Nadia Carlsten, CEO da Smartbird, defende que sua mudança de foco representa a criação de uma nova empresa de infraestrutura de IA, e não apenas uma rebranding. Essa perspectiva sugere que, apesar das flutuações de mercado, algumas empresas estão buscando um reposicionamento estratégico em um setor que promete crescimento a longo prazo.




