A ascensão da extrema direita na Alemanha, representada pelo partido Alternativa para a Alemanha (AfD), é frequentemente atribuída a fatores econômicos e sociais, mas um deputado estadual da legenda, Gordon Köhler, aponta uma conexão mais profunda: o legado do socialismo que permeou a antiga República Democrática Alemã (RDA). Segundo ele, a fragilidade econômica resultante desse passado molda a percepção e as preocupações dos cidadãos, especialmente em regiões como Saxônia-Anhalt, onde o apoio ao partido chega a 41% nas pesquisas de opinião.
Köhler, que é vice-líder da bancada da AfD no parlamento estadual, argumenta que a falta de oportunidades de acumulação de riqueza durante o regime socialista deixou uma marca duradoura. “Na RDA, não havia possibilidade de acumular patrimônio como imóveis ou ações. Quando o regime caiu, muitas famílias no leste perderam empregos da noite para o dia”, explica. Ele acrescenta que, enquanto os cidadãos do oeste da Alemanha frequentemente têm uma rede de segurança financeira maior, aqueles do leste sentem os impactos das crises de forma mais aguda.
A pandemia de Covid-19 também exacerbou esses sentimentos. Köhler menciona que muitos moradores da Saxônia-Anhalt perceberam uma semelhança entre as restrições impostas durante a crise sanitária e o controle estatal da época da RDA. “As pessoas disseram que a forma como a informação era controlada lembrava os tempos em que o governo tentava moldar a opinião pública”, relata.
Além disso, a AfD, que foi criada em 2013 em resposta à condução da economia na União Europeia, começou a adotar uma postura populista e xenófoba, atraindo eleitores descontentes. O partido, que já foi classificado como extremista pelo Escritório Federal de Proteção à Constituição, conseguiu reverter essa classificação judicialmente, o que lhe permitiu expandir sua base de apoio.
Köhler defende que as acusações de extremismo contra a AfD são exageradas e que muitas das declarações feitas por seus membros estão protegidas pela liberdade de expressão. Ele cita um exemplo em que comparou as restrições da pandemia à situação na RDA, o que lhe rendeu críticas e acusações de deslegitimar o Estado.
As preocupações econômicas também são um fator crucial para o crescimento da AfD na região. A Saxônia-Anhalt abriga o chamado triângulo químico da Alemanha Central, um polo industrial que enfrenta desafios significativos. “Essas empresas representam 25% do PIB do estado. Se esse setor entrar em crise, as consequências serão drásticas para a região, o que naturalmente fortalece o apoio ao partido”, conclui Köhler.
Com o cenário político em constante mudança e a AfD ganhando força, a relação entre passado e presente continua a ser um tema central nas discussões sobre o futuro da Alemanha. A interação entre a história socialista e as atuais crises econômicas e sociais pode moldar o panorama político do país nos próximos anos.




