Na Cuba marcada pela crise econômica, a Copa do Mundo de 2026 surge como um breve alívio para a população. Com uma transmissão que começou com dois dias de atraso devido a problemas financeiros, os cubanos finalmente puderam se reunir em torno da televisão para assistir ao primeiro jogo entre Marrocos e Brasil. Em um pequeno café no bairro de Centro Habana, homens acompanhavam a partida em uma televisão antiga, enquanto o grafite em um prédio em ruínas lembrava a todos: “Você precisa ser feliz”.
A ilha, que possui uma rica tradição no beisebol, viveu sua única participação na Copa do Mundo em 1938, quando chegou às quartas de final. Desde então, o futebol ganhou força, especialmente entre as crianças, impulsionado pela popularização da internet móvel nos últimos anos. O clima de expectativa aumentou quando a televisão estatal anunciou que transmitiria 16 jogos da fase de grupos e todas as partidas a partir das oitavas de final.
Entretanto, a infraestrutura elétrica de Cuba, já debilitada, enfrenta frequentes apagões, exacerbados por um bloqueio petrolífero imposto pelos Estados Unidos. Ismael Veranes, diretor de recursos humanos do Teatro Nacional de Cuba, compartilhou sua frustração ao não conseguir assistir ao jogo em casa devido a 20 horas sem energia. Para ele, a Copa do Mundo representa uma pausa em meio a uma rotina marcada por dificuldades e incertezas.
As crianças também estão se adaptando a essa nova realidade. Michael, um jovem fã de Lionel Messi, e sua irmã Meiliuvis, de 10 anos, brincavam de futebol com uma tampinha de garrafa sob o olhar de um mural de Che Guevara. Osmany, pai de Michael, destacou que, apesar das condições precárias dos campos de futebol, a Copa do Mundo oferece um momento de distração e alegria para a população.
Muitos cubanos recordam com saudade as Copas anteriores, quando a televisão estatal transmitia todos os jogos e a vida era menos difícil. Atualmente, muitos torcedores se reúnem em bares com TV a cabo, enquanto outros assistem do lado de fora, lamentando a falta de acesso. Alan, de 36 anos, expressou sua insatisfação com a situação, segurando uma lata de cerveja enquanto assistia ao jogo da calçada.
No entanto, em bairros mais privilegiados, como El Vedado, a festa em torno da Copa do Mundo é acompanhada de cervejas a um dólar e um clima de celebração, evidenciando as desigualdades que a crise agravou. Mesmo assim, a alegria de poder acompanhar a Copa é palpável. Para o biólogo Víctor Díaz, de 24 anos, ter algo que alivie as dificuldades diárias é um motivo de celebração. “É incrível ter um momento de alegria em meio a tantas cargas”, afirmou. A Copa do Mundo, portanto, não é apenas um evento esportivo, mas um símbolo de esperança e resiliência para os cubanos em tempos difíceis.




