Nos últimos meses, a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, passou a ser vista como a nova líder interina do país, uma mudança notável que foi destacada por Donald Trump em suas declarações. O presidente americano anunciou o que considera ser o maior acordo petrolífero da história, em um momento em que Nicolás Maduro, o presidente deposto, se encontra preso em Nova York, após uma operação das autoridades dos Estados Unidos. Apesar da prisão de Maduro, o chavismo se mantém no poder, agora sob a tutela de Washington, que acaba de garantir controle sobre mais de 65 bilhões de barris das reservas comprovadas de petróleo venezuelano.
A mudança na postura de Trump em relação a Delcy é tão surpreendente quanto a magnitude do acordo. Horas após a prisão de Maduro, Trump havia ameaçado Delcy, afirmando que, se ela não fizesse “o que é certo”, enfrentaria consequências ainda mais severas do que as que foram impostas a Maduro. Agora, é com a sucessora do chavismo que os Estados Unidos negociam um acordo estratégico de petróleo.
O secretário de Estado, Marco Rubio, declarou que o acordo é uma parte crucial da transição e recuperação da Venezuela. O objetivo é que os investimentos provenientes desse acordo ajudem a reconstruir a economia do país e criem condições para a redemocratização. Delcy, por sua vez, afirma que a Venezuela continuará sendo a proprietária de seu petróleo, mas que precisa de investimentos para isso. Segundo ela, o acordo pode gerar mais de 200 bilhões de dólares para o Estado venezuelano ao longo de 25 anos.
Entretanto, tanto os Estados Unidos quanto Delcy não parecem estar apressados em convocar eleições livres e independentes. Essa guinada é também surpreendente para o chavismo, que sempre teve o anti-imperialismo como uma de suas bandeiras. Delcy, que anteriormente acusava a oposição de querer entregar o petróleo aos “amos” em Washington, agora agradece a Trump e Rubio pelo acordo.
Os interesses de Washington são claros: o acordo reduz a influência da China e da Rússia na região, e a Casa Branca busca assegurar a “dominância americana” na América Latina. Os campos petrolíferos serão controlados pela empresa do venezuelano Alejandro Betancourt, que enfrenta um mandado de prisão na Suíça por suspeitas de lavagem de dinheiro.
A oposicionista María Corina Machado levantou questões sobre a legitimidade de Delcy para negociar os recursos do país, afirmando que o petróleo é apenas uma parte da reconstrução e que não haverá desenvolvimento sem instituições sólidas e um governo legitimamente eleito. Essa divergência revela uma inversão significativa: enquanto Washington acredita que petróleo, recuperação econômica e estabilidade levarão a Venezuela à democracia, María Corina argumenta que instituições democráticas são essenciais para garantir essa recuperação.
Atualmente, Delcy é quem administra o petróleo, a recuperação e a estabilidade do país. O acordo pode beneficiá-la a curto prazo, fortalecendo sua relação com Trump e diminuindo os incentivos americanos para pressionar por mudanças enquanto houver uma liderança disposta a cumprir o acordo. Contudo, isso não garante a permanência de Delcy no poder. O acordo é impopular, e seus benefícios podem demorar a se concretizar.
Esse novo cenário gerou um dilema que não existia quando Maduro foi deposto. Os Estados Unidos agora têm um enorme interesse econômico e estratégico atrelado à estabilidade da Venezuela, além de uma “altamente respeitada” sucessora de Maduro encarregada de garantir essa estabilidade.



