Post: Terremotos alteram dinâmica da relação entre EUA e Venezuela

Os terremotos de 2026 mudaram a relação entre EUA e Venezuela, priorizando a emergência humanitária em detrimento de planos políticos.
Terremotos alteram dinâmica da relação entre EUA e Venezuela

Os terremotos devastadores que atingiram a Venezuela em 24 de junho de 2026 provocaram uma reviravolta significativa nas prioridades da relação entre os Estados Unidos e o país sul-americano. O que antes era uma estratégia focada na estabilização política e econômica da Venezuela agora cedeu espaço a uma emergência humanitária de grandes proporções, que exige atenção imediata e recursos consideráveis.

Antes da catástrofe, o governo do então presidente Donald Trump havia delineado um plano em três fases: estabilização, recuperação e transição. No entanto, a magnitude dos danos causados pelos sismos fez com que essa abordagem fosse questionada. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, reconheceu que a estratégia sofreu um revés significativo, enquanto John Barrett, encarregado de negócios dos EUA na Venezuela, tentou assegurar que o plano ainda estava em vigor, embora com novas diretrizes.

“Os terremotos interromperam esse plano ao gerarem uma das piores catástrofes naturais que a Venezuela sofreu em mais de um século”, afirmou Carolina Jiménez Sandoval, presidente do Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos (Wola). Segundo ela, essa tragédia não apenas complica a transição política desejada por Washington, mas também torna a situação muito mais desafiadora para a reconstrução do país.

Phil Gunson, analista sênior do International Crisis Group, corroborou a visão de que o plano de recuperação está, por ora, suspenso. “Todos os esforços do governo e da sociedade civil devem ser focados numa reconstrução que, evidentemente, levará anos”, disse Gunson, ressaltando que, antes dos terremotos, o plano já enfrentava dificuldades, como críticas e falta de informações sobre o progresso nas questões políticas.

A catástrofe também levanta questões sobre a influência dos EUA sobre a Venezuela, especialmente em um contexto onde Trump chegou a insinuar que o país poderia se tornar o 51º estado americano. Gunson comentou que, se essa ideia for levada a sério, a responsabilidade dos EUA em termos de ajuda e reconstrução se tornaria ainda mais evidente. Ele observou que, até o momento, Washington tem escolhido os interlocutores e as condições para as negociações, o que limita a autonomia da Venezuela em suas decisões políticas.

Antes dos terremotos, a líder política exilada Dinorah Figuera, presidente da Assembleia Nacional Venezuelana, havia se reunido com Delcy Rodríguez, vice-presidente do governo, para discutir as condições para futuras eleições, com o apoio direto dos EUA. No entanto, a dinâmica mudou drasticamente após a tragédia, e a Casa Branca, que inicialmente apoiou o governo interino de Rodríguez, pode enfrentar um aumento na pressão popular por mudanças políticas, especialmente em resposta à forma como o governo lidou com a emergência.

No aspecto econômico, a situação se agravou ainda mais. Os terremotos exacerbaram uma crise humanitária que já perdurava por mais de uma década, e os custos de reconstrução são imensos. Washington prometeu cerca de 300 milhões de dólares em ajuda emergencial, um valor considerado insuficiente diante das necessidades reais do país. Gunson destacou que a ajuda oferecida pelos EUA está muito aquém do que é necessário, uma vez que a Venezuela já enfrentava uma “emergência humanitária complexa” antes dos sismos, com serviços públicos em colapso e grave escassez de alimentos e serviços de saúde.

Nos últimos meses, a Venezuela aumentou suas vendas de petróleo, especialmente após a detenção do ex-presidente Nicolás Maduro pelos EUA. No entanto, Gunson alertou que Washington controla essas transações financeiras, depositando os recursos em uma conta gerida pelo governo americano, que decide quanto dinheiro enviar e quando. Isso levanta preocupações sobre a transparência e a eficácia da ajuda, especialmente em um momento em que a população venezuelana mais precisa de apoio.

Além disso, o regime de sanções imposto pelos EUA à Venezuela, considerado um dos mais rigorosos do mundo, continua a ser um ponto de discórdia. Gunson questionou por que essas sanções não foram suspensas, especialmente em um momento crítico como este.

A situação também impactou os planos da líder da oposição, María Corina Machado, que expressou o desejo de retornar à Venezuela para ajudar as vítimas, mas se viu impedida pelo governo, que mantém o espaço aéreo fechado. A resposta de Washington foi clara: o foco deve ser a ajuda humanitária, e a introdução de questões políticas neste momento seria contraproducente. Gunson, por sua vez, levantou dúvidas sobre a viabilidade do retorno de Machado, considerando a tensão entre seus objetivos e as prioridades dos EUA.

A relação entre os Estados Unidos e a Venezuela, que já era complexa, agora enfrenta novos desafios, com a necessidade urgente de reconstrução e a pressão por mudanças políticas se intensificando. O futuro dessa dinâmica dependerá, em grande parte, de como ambos os lados responderão a essa crise sem precedentes.

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