Nos campos de batalha da Ucrânia, a luta pela sobrevivência não se limita apenas ao confronto com o inimigo. Em meio ao caos da guerra, que já se estende por mais de cinco anos, muitos soldados têm recorrido ao uso de substâncias químicas como forma de lidar com a dor, o medo e o estresse constante. A dependência química, um problema crescente e frequentemente negligenciado, afeta tanto os ucranianos quanto os soldados do lado oposto do front.
As drogas, que variam de analgésicos a opioides, são utilizadas para tratar ferimentos, evitar o sono e suprimir emoções. Dmytro, um oficial ucraniano em recuperação, descreve a brutalidade da guerra: “Guerra significa braços e pernas arrancados. É um estado emocional extremamente difícil. Uma pessoa que nunca usou nada na vida acaba usando ali.”
Desde o início da invasão em larga escala em 2022, muitos soldados têm permanecido na linha de frente por longos períodos, sem descanso adequado e sem um plano de desmobilização. Stanislav, que participou da contraofensiva em Zaporíjia, desertou após dois anos e vive escondido, lutando contra o vício. Ele compartilha: “Quando você está sob efeito da metadona, consegue esquecer um pouco. Não é que você ganhe ‘força’. É mais que você consegue se distanciar daqueles horrores.”
Historicamente, o uso de drogas em contextos de guerra não é uma novidade. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, a Alemanha nazista distribuiu metanfetamina às suas tropas. As Forças Armadas dos Estados Unidos também forneceram estimulantes a soldados em diversos conflitos, desde a Segunda Guerra até o Iraque. O uso de substâncias, muitas vezes, não visa melhorar o desempenho, mas sim lidar com os traumas e a pressão do combate.
Os soldados ucranianos, em sua maioria jovens, têm se voltado tanto a estimulantes quanto a opioides. Especialistas alertam que a dependência pode persistir mesmo após o fim do conflito. Ihor Alferow, psicoterapeuta e capelão militar, observa que a falta de rodízio nas tropas, que lutam sem descanso, resulta em alterações na bioquímica dos soldados. “Eles voltam sem interesse por nada: nem família, nem casa, nem trabalho. A droga ‘amortece’ essa parte. Isso se torna um problema.”
A exposição a múltiplos traumas pode levar à síndrome de dor intensa, que não é resolvida por medicamentos comuns. Dmytro, por exemplo, começou a usar analgésicos após um ferimento em combate e, ao retornar ao serviço, sentiu-se mal. “Você precisa encontrar alguma coisa, precisa dar um jeito. Comecei a tomar Prinagolin. Depois, recorri à metadona. Cheguei a um ponto em que já não conseguia mais me controlar.”
A saúde mental dos soldados é um fator crítico. Mesmo aqueles que são gravemente feridos e tratados continuam a enfrentar dores mal controladas e sintomas de Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Victoriia Tymoshevska, diretora da organização Health Solutions, estima que metade dos militares na linha de frente já teve alguma experiência com drogas, frequentemente combinando álcool com outras substâncias. “Começou com álcool. Depois todo mundo cheirava anfetamina”, relata Stanislav sobre os primeiros dias de treinamento.
Para muitos combatentes, o uso de drogas representa um risco imediato, pois pode comprometer sua atuação na linha de frente. “Desde que não afete sua capacidade de cumprir o dever, isso é tolerado. Fazem vista grossa”, afirma Tymoshevska. Essa normalização do uso de substâncias pode complicar ainda mais a situação dos soldados, especialmente durante o processo de desmobilização, quando muitos enfrentam um novo conjunto de desafios emocionais e psicológicos.




