Os sites de apostas estão adotando táticas de marketing agressivas durante a Copa do Mundo, focando não apenas em lucros imediatos, mas na construção de uma base de clientes fiéis. Especialistas afirmam que os anúncios veiculados durante as transmissões, que têm gerado críticas por suas recomendações de jogo e pela urgência nas mensagens, representam apenas a parte visível de um iceberg muito maior. “Essas estratégias são apenas a ponta do iceberg”, afirma George Valença, professor de ciência da computação da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco), que estuda os padrões manipulativos de marketing conhecidos como “dark patterns”.
Ao se cadastrar em uma plataforma de apostas, os usuários começam a receber newsletters por e-mail e SMS, denominadas ‘textos-foguete’, que incluem programas de fidelidade e promoções exclusivas, conforme estipulado pela lei nº 14.790 de 2023. Dados da SimilarWeb indicam que essa abordagem tem sido eficaz; as plataformas que anunciaram na CazéTV, por exemplo, registraram um aumento superior a 115% no número de downloads de seus aplicativos durante o torneio.
Um exemplo claro dessa estratégia é um e-mail da Betnacional, que detalha condições promocionais criadas em parceria com a CazéTV, disponíveis por tempo limitado. Outras empresas, como KTO e Bet365, também têm oferecido clubes de fidelidade, onde os apostadores que realizam mais apostas são recompensados.
Além disso, os novos usuários que acessam essas plataformas em busca de prognósticos esportivos frequentemente se deparam com ofertas de cassino online, incluindo transmissões ao vivo de roleta e jogos eletrônicos, como o Fortune Tiger, popularmente conhecido como “jogo do tigrinho”. Essa forma de marketing direcionado, embora não esteja sob investigação do governo por conta dos “alertas ilegíveis” ou da liminar do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) que suspendeu algumas peças publicitárias exibidas durante a transmissão do mundial da FIFA, levanta preocupações entre os pesquisadores sobre a interação entre as apostas e os jogadores, que pode envolver padrões enganosos de marketing.
As empresas Betnacional, KTO e Bet365 foram contatadas, mas não comentaram sobre a situação. O IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável), que representa essas marcas, afirmou que as leis brasileiras já são rigorosas e expressou apoio às investigações em andamento.
Em resposta às preocupações do governo e do Conar, o canal do YouTube anunciou que implementou mudanças nas exibições de marcas de apostas. A empresa ressaltou que o mercado de apostas esportivas no Brasil ainda está em fase de amadurecimento e que o debate atual é fundamental para a evolução do setor.
Pesquisadores destacam que essas táticas de marketing envolvem o uso de padrões manipulativos de design, que são mecanismos de interface e comunicação elaborados para induzir decisões favoráveis às plataformas. Valença, da UFRPE, explica que táticas que envolvem bônus com condições restritas, como as que estão sendo utilizadas atualmente, podem ser vistas como uma forma de manipulação que visa maximizar o engajamento e a retenção de usuários, mesmo que isso possa comprometer a transparência e a ética na comunicação com os consumidores.



